{"id":646,"date":"2026-06-15T16:05:20","date_gmt":"2026-06-15T19:05:20","guid":{"rendered":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/?p=646"},"modified":"2026-07-15T15:01:25","modified_gmt":"2026-07-15T18:01:25","slug":"as-cozinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/2026\/06\/15\/as-cozinhas\/","title":{"rendered":"As cozinhas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cozinhas das festas de santo em Ros\u00e1rio Oeste s\u00e3o espa\u00e7os de mem\u00f3ria, partilha e constru\u00e7\u00e3o coletiva. Mais do que locais de preparo dos alimentos, elas re\u00fanem saberes tradicionais, trabalho comunit\u00e1rio, f\u00e9 e conviv\u00eancia. Entre fog\u00f5es a lenha, mutir\u00f5es, receitas transmitidas entre gera\u00e7\u00f5es e refei\u00e7\u00f5es compartilhadas, as cozinhas tornam-se territ\u00f3rios simb\u00f3licos onde cultura, devo\u00e7\u00e3o e pertencimento se encontram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">As cozinhas s\u00e3o lugares centrais nas casas, n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 ali onde s\u00e3o produzidas as comidas que s\u00e3o essenciais para a exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m porque s\u00e3o lugares de partilha e comunh\u00e3o. Elas s\u00e3o retratos concretos das experi\u00eancias culturais, onde os utens\u00edlios, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos objetos, os ingredientes e os saberes contam muito da hist\u00f3ria das fam\u00edlias e comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Ferreira (2020), a espacialidade na alimenta\u00e7\u00e3o pode se desdobrar no pensar da pr\u00f3pria cozinha como um lugar, j\u00e1 que ela concentra n\u00e3o apenas significativa parcela das atividades dom\u00e9sticas cotidianas, como tamb\u00e9m muitas das mem\u00f3rias afetivas acerca da casa. Nossas rela\u00e7\u00f5es emocionais tamb\u00e9m s\u00e3o marcadas pelo espa\u00e7o da cozinha: espa\u00e7o do encontro, da reuni\u00e3o, dos aromas e sabores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a cozinha \u00e9 um espa\u00e7o de rela\u00e7\u00f5es sociais e \u201cDurante o preparo e o momento das refei\u00e7\u00f5es, a cozinha pode ser palco do estreitar de la\u00e7os ou at\u00e9 mesmo do estopim de desaven\u00e7as, entre as pessoas que ali est\u00e3o\u201d (Ferreira, 2020, p. 202).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percorrer as cozinhas das comunidades durante a prepara\u00e7\u00e3o da festa \u00e9 testemunhar a convers\u00e3o dos alimentos em sabores partilhados. Uma semana antes da celebra\u00e7\u00e3o, inicia-se o mutir\u00e3o: limpeza do espa\u00e7o, coleta e corte da lenha, organiza\u00e7\u00e3o dos utens\u00edlios, preparo de doces, licores e biscoitos. Homens e mulheres assumem fun\u00e7\u00f5es complementares, numa din\u00e2mica que expressa coopera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o separa\u00e7\u00e3o r\u00edgida. A comida ao final do trabalho funciona como retribui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e reafirma o pacto coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na vis\u00e3o de Palhares (2014, p. 27) \u201cDor, sorriso, partilha, amizade, solid\u00e3o, desejo, s\u00e3o apenas alguns sentimentos vividos em volta do fog\u00e3o a lenha\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse mutir\u00e3o, ou motyr\u00f5 \u2014 \u201cjuntar as m\u00e3os para fazer\u201d \u2014 revela uma pr\u00e1tica socioespacial historicamente constru\u00edda, como j\u00e1 apontava Candido (2001) ao tratar do cotidiano campon\u00eas. Na festa, o trabalho coletivo integra o universo simb\u00f3lico da f\u00e9. Cozinhar \u00e9 tamb\u00e9m cumprir a promessa, agradecer a gra\u00e7a alcan\u00e7ada e renovar a alian\u00e7a com o santo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cozinha assume centralidade no dia da festa. O fogo dos fog\u00f5es moldados no ch\u00e3o, herdeiros dos antigos tacurus ind\u00edgenas, desperta cedo. Panelas de alum\u00ednio substituem as antigas panelas de barro, mas os saberes permanecem. O \u201cponto\u201d n\u00e3o se mede por rel\u00f3gio ou term\u00f4metro: \u201c\u00e9 no olho\u201d, \u201c\u00e9 quando o cheiro muda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.O trabalho coletivo, o calor do fogo, o esfor\u00e7o f\u00edsico, a fuma\u00e7a que arde nos olhos s\u00e3o compreendidos como sacrif\u00edcio que renova a alian\u00e7a com o divino (Claval, 2001). Antes ou depois de servir, muitas cozinheiras re\u00fanem-se para agradecer de m\u00e3os dadas. A cozinha transforma-se em territ\u00f3rio simb\u00f3lico de f\u00e9, onde corpo e territ\u00f3rio se fundem em \u201cterrit\u00f3rios-corpos\u201d (Haesbaert, 2020), rompendo dicotomias entre sagrado e profano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cozinha \u00e9 espa\u00e7o experiencial de sensa\u00e7\u00f5es e o sabor se revela no ato de comer. Nesse ato, paisagem e sabor se misturam e se tornam uma s\u00f3 ess\u00eancia impregnada de gosto e aroma. Nesta arte de transforma\u00e7\u00e3o dos alimentos, s\u00e3o constru\u00eddos saberes que levam a desvendar a superf\u00edcie terrestre enquanto espa\u00e7o e mat\u00e9ria \u2013 espa\u00e7o geogr\u00e1fico (Grat\u00e3o, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O momento de servir \u00e9 um dos mais esperados. Filas se formam, panelas s\u00e3o transportadas coletivamente, idosos e crian\u00e7as recebem prioridade, cururueiros s\u00e3o atendidos com defer\u00eancia. Alguns levam vasilhames para casa, pr\u00e1tica aceita como costume comunit\u00e1rio. Nunca falta comida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a partilha, o espa\u00e7o reorganiza-se em microterrit\u00f3rios de conviv\u00eancia. Grupos se formam conforme la\u00e7os familiares e afetivos. O ambiente que acolheu a reza cantada e o cururu passa a abrigar o rasqueado, o lambad\u00e3o e a m\u00fasica sertaneja. O mesmo espa\u00e7o articula devo\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o e dan\u00e7a, revelando o hibridismo entre tradi\u00e7\u00e3o camponesa e elementos contempor\u00e2neos (Brand\u00e3o, s\/d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Celebrar, comer, rezar e dan\u00e7ar coexistem, sendo que a festa de santo, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas evento religioso, mas momento privilegiado de organiza\u00e7\u00e3o da vida social, onde perman\u00eancias e rupturas se entrela\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Mesmo diante das transforma\u00e7\u00f5es urbanas, da expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e das press\u00f5es da modernidade, os saberes e sabores persistem. Eles reafirmam a identidade territorial rosariense e demonstram que, nas festas de santo, a comida \u00e9 mem\u00f3ria viva, cuidado coletivo e linguagem do pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cozinhas das festas de santo em Ros\u00e1rio Oeste s\u00e3o espa\u00e7os de mem\u00f3ria, partilha e constru\u00e7\u00e3o coletiva. Mais do que locais de preparo dos alimentos, elas re\u00fanem saberes tradicionais, trabalho comunit\u00e1rio, f\u00e9 e conviv\u00eancia. 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