{"id":650,"date":"2026-06-15T16:09:14","date_gmt":"2026-06-15T19:09:14","guid":{"rendered":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/?p=650"},"modified":"2026-07-15T15:01:09","modified_gmt":"2026-07-15T18:01:09","slug":"o-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/2026\/06\/15\/o-rio\/","title":{"rendered":"O rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Rio Cuiab\u00e1 \u00e9 parte fundamental da hist\u00f3ria, da cultura e da identidade de Ros\u00e1rio Oeste. Mais do que um elemento natural, o rio constitui um territ\u00f3rio vivido, marcado por mem\u00f3rias, pr\u00e1ticas culturais, religiosidade popular e modos de vida ribeirinhos. Ao longo de suas \u00e1guas surgiram comunidades, festas religiosas, saberes tradicionais, narrativas e express\u00f5es culturais que seguem conectando f\u00e9, natureza e pertencimento entre gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">O termo \u201crio acima\u201d \u00e9 utilizado como orienta\u00e7\u00e3o espacial para indicar a localiza\u00e7\u00e3o relacional de um ponto geogr\u00e1fico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 montante do rio, isto \u00e9, em dire\u00e7\u00e3o a sua nascente e contra a correnteza do rio. Quando o deslocamento ocorre em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 jusante do rio, isto \u00e9 a sua foz, utiliza-se a express\u00e3o \u201crio abaixo\u201d.O ponto de refer\u00eancia para tal delimita\u00e7\u00e3o era o Porto Geral da Vila de Cuiab\u00e1, de onde saiam e\/ou entravam as mercadorias oriundas tanto das localidade situadas rio acima quanto aquelas rio-abaixo destinadas ao mercado externo, via rio Paraguai.Essa classifica\u00e7\u00e3o regional evidencia a import\u00e2ncia do Rio Cuiab\u00e1 no processo de ocupa\u00e7\u00e3o territorial e na circula\u00e7\u00e3o das mercadorias, fluxo de pessoas e informa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesca e agricultura de subsist\u00eancia possibilitaram a forma\u00e7\u00e3o de um pequeno povoado no s\u00e9culo XVIII, cuja funda\u00e7\u00e3o se deu tamb\u00e9m com a constru\u00e7\u00e3o da capela dedicada a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio. O rio e a religiosidade marcaram a hist\u00f3ria desse lugar e foram inscritos nos diferentes nomes que Ros\u00e1rio Oeste recebeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A incorpora\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio vinculando-a \u00e0 topon\u00edmia geogr\u00e1fica Rio Acima, trata-se de uma linguagem que articula pol\u00edtica territorial e identidade, do qual a religi\u00e3o (base simb\u00f3lica) e o rio Cuiab\u00e1 (base material e simb\u00f3lica) da vida social, constituem eixos estruturadores e complementares na constru\u00e7\u00e3o da identidade do lugar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rio Cuiab\u00e1 al\u00e9m de configurar como elemento estruturador da circula\u00e7\u00e3o, do transporte, das atividades econ\u00f4micas e da forma\u00e7\u00e3o dos povoados, constitui, tamb\u00e9m, um elemento central na constru\u00e7\u00e3o da identidade e da geograficidade dos assentamentos humanos ribeirinhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do curso do rio Cuiab\u00e1, desenvolveram pr\u00e1ticas espaciais que contribu\u00edram para a constru\u00e7\u00e3o de um modus vivendi, de ser e viver ribeirinho, marcado por rela\u00e7\u00f5es cotidianas, sociais e culturais em estreita rela\u00e7\u00e3o com a din\u00e2mica das \u00e1guas, seus mitos e o sagrado. Para esses moradores, o rio como parte de seu cotidiano, significa fonte de subsist\u00eancia, de (re)produ\u00e7\u00e3o da vida social, espa\u00e7o do \u00f3cio e do lazer e das manifesta\u00e7\u00f5es culturais e das pr\u00e1ticas religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rio Cuiab\u00e1 n\u00e3o se configura apenas como um elemento natural da paisagem, mas como territ\u00f3rio vivido, carregado de significados, mem\u00f3rias e pr\u00e1ticas socioculturais que se reproduzem ao longo das gera\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando a identidade ribeirinha e a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre \u00e1gua e a religiosidade popular, uma vez que \u00e9 por meio dela que muitos fen\u00f4menos naturais s\u00e3o explicados, interpretados e ritualizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, rio e religiosidade est\u00e3o conectados e n\u00e3o constituem meros indicadores espaciais ou administrativos, mas fazem parte de uma teia de narrativas que expressam formas simb\u00f3licas de apropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o por um dado grupo social, modos de ser, viver e relacionar com a natureza, com o sagrado e modos de organiza\u00e7\u00e3o social em um determinado momento hist\u00f3rico (Correa, 2007) e que contribuem para a forma\u00e7\u00e3o de uma identidade territorial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A t\u00edtulo de exemplifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre natureza, f\u00e9 e territ\u00f3rio, destaca-se a Festa do Divino Pai Eterno, realizada na comunidade rural do Pai Eterno, cuja devo\u00e7\u00e3o se vincula \u00e0 narrativa do aparecimento da imagem do santo nas \u00e1guas do Rio Cuiab\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo relatos da comunidade, no local onde a imagem foi encontrada, \u00e0s margens do rio, foi edificada uma capela que, posteriormente, foi destru\u00edda pelas \u00e1guas durante o per\u00edodo das cheias, evento que, na linguagem local, \u00e9 denominado \u201cdil\u00favio\u201d, em refer\u00eancia \u00e0s grandes inunda\u00e7\u00f5es do rio Cuiab\u00e1. Ap\u00f3s esse epis\u00f3dio, registra-se a edifica\u00e7\u00e3o da capela e a nomea\u00e7\u00e3o do Divino Pai eterno, como Padroeiro e protetor da comunidade. Assim, a manifesta\u00e7\u00e3o do sagrado nos elementos da natureza transforma o espa\u00e7o em lugar de devo\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o, onde a mem\u00f3ria, a f\u00e9 e a experi\u00eancia vivida refor\u00e7am a sacraliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelos caminhos das \u00e1guas circulam as imagens dos santos e as bandeiras esmoleiras, conectando comunidades e fam\u00edlias e assegurando a continuidade das pr\u00e1ticas festivas devocionais. Nas casas preservam o h\u00e1bito de cultivar um nicho ou altar, onde rica e complexa iconografia \u00e9 encontrada: quadros e est\u00e1tuas de santos de devo\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes incluindo-se m\u00e3es-d\u2019\u00e1gua e pretos velhos, velas, santinhos impressos em papel. (Campos, 2014, p.89).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s margens do rio mora uma popula\u00e7\u00e3o que se exprime o cotidiano na linguagem da forma (Drumond, 1978), (re)produzida no saber\/fazer transmitido pela oralidade, como a constru\u00e7\u00e3o de canoas, a confec\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica e a elabora\u00e7\u00e3o de instrumentos musicais que enriquecem suas pr\u00e1ticas culturais possuem a sua origem do meio ambiente circunvinzinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Um exemplo ilustrativo \u00e9 a viola-de-cocho, um objeto musical utilizado nas manifesta\u00e7\u00f5es culturais do cururu e nos levantamentos de mastros nas festividades dedicadas aos santos. A palavra \u201ccocho\u201d origina-se da t\u00e9cnica de escava\u00e7\u00e3o da caixa de resson\u00e2ncia da viola em um tronco de madeira s\u00f3lido, que \u00e9 a mesma empregada na confec\u00e7\u00e3o dos recipientes utilizados para armazenar alimentos destinados ao gado. (Dossi\u00ea IPHAN 2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s margens do rio, convive uma comunidade cujos integrantes \u201cfalam a linguagem do rio\u201d (Drumond, 1978), que inclui termos como: viola de cocho, ganz\u00e1, jac\u00e1s (cesto para depositar peixe na \u00e1gua), sar\u00e3s (vegeta\u00e7\u00e3o ribeirinha), canoa, pacu,rede, cururu, siriri, lufada, rio deu praia (vazante), nas \u00e1guas(per\u00edodo de chuva), comer \u00e1gua (embriagar), comer cabe\u00e7a de pacu (lenda). Essas express\u00f5es remetem \u00e0s viv\u00eancias e \u00e0s pr\u00e1ticas sociais que emergem da conviv\u00eancia cotidiana com o rio. Assim, o jac\u00e1, a rede, a canoa, o peixe, o sar\u00e3, pacu, a viola de cocho, o ganz\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas objetos (formas) ou elementos naturais, mas fazem parte de um modo de vida que representa saberes e conhecimentos sobre a din\u00e2mica e o tempo do rio, das cheias, da vazante e das pr\u00e1ticas de pesca. Assim, quando o ribeirinho diz: \u201cSubiu uma lufada. Demais de peixe. \u00ca ha!\u201d, faz refer\u00eancia \u00e0 migra\u00e7\u00e3o dos peixes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s cabeceiras dos rios, sendo \u201c\u00ca ha!\u201d uma express\u00e3o que indica espanto ou admira\u00e7\u00e3o diante da abund\u00e2ncia de peixes. (Drumond, 1978).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rio, como um espa\u00e7o vivido e de viv\u00eancia, \u00e9 carregado de significados e constru\u00eddos a partir das experi\u00eancias e pr\u00e1ticas cotidianas dos sujeitos e que fazem parte da constitui\u00e7\u00e3o da identidade cultural e territorial das comunidades ribeirinhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Rio Cuiab\u00e1 \u00e9 parte fundamental da hist\u00f3ria, da cultura e da identidade de Ros\u00e1rio Oeste. Mais do que um elemento natural, o rio constitui um territ\u00f3rio vivido, marcado por mem\u00f3rias, pr\u00e1ticas culturais, religiosidade popular e modos de vida ribeirinhos. Ao longo de suas \u00e1guas surgiram comunidades, festas religiosas, saberes tradicionais, narrativas e express\u00f5es culturais que seguem conectando f\u00e9, natureza e pertencimento entre gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":695,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"disabled","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[],"class_list":["post-650","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lugares-de-memorias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=650"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":651,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions\/651"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/695"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cantosdorosario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}