Festa de Nossa Senhora da Piedade e Santo Antônio (Bairro Taboão)

Popularmente conhecida como Festa do Taboão, a celebração acontece anualmente em agosto e reúne fé, devoção, trabalho coletivo, sociabilidade e comensalidade.

Iniciada em 1957 na Fazenda Cassange, a devoção a Nossa Senhora da Piedade foi levada ao Bairro Taboão em 1975, junto com a família, os santos e as práticas festivas.

No novo território, a festa se fortaleceu por meio das relações de parentesco e vizinhança, envolvendo casa, quintal, ruas e espaços comunitários.

Cururu, reza cantada, dança de São Gonçalo, preparo coletivo de alimentos e baile permanecem como importantes práticas da celebração.

Os preparativos começam cerca de uma semana antes, mobilizando a comunidade no trabalho coletivo e na produção de comidas e bebidas tradicionais.

A circulação das bandeiras de Nossa Senhora da Piedade e Santo Antônio pelas residências amplia o território da devoção, levando bênçãos e proteção às famílias.

Ao longo do tempo, a antiga festa familiar tornou-se uma celebração comunitária, reunindo participantes que se reconhecem como “Família Taboão”.

Hoje, a festa constitui uma importante expressão da memória, da fé e do pertencimento comunitário de Rosário Oeste, mantendo viva uma tradição transmitida entre gerações.

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Popularmente conhecida como "Festa do Taboão", a celebração em devoção a Nossa Senhora da Piedade e a Santo Antônio, realizada anualmente no mês de agosto, constitui uma das mais tradicionais manifestações do catolicismo popular de Rosário Oeste. Enraizada na memória coletiva da comunidade, a festividade articula fé, devoção, sociabilidade e trabalho coletivo, configurando-se como uma importante referência do patrimônio cultural imaterial rosariense.

A Festa de Nossa Senhora da Piedade configura-se como continuidade de uma prática devocional originalmente vinculada a D. Emília Maria Santana, realizada no distrito de Coxipó do Ouro. A territorialização dessa devoção em Rosário Oeste teve início em agosto de 1957, quando D. Emília transmitiu a responsabilidade pela continuidade da celebração a seus filhos, Margarida Maria Ferreira e Antônio Ferreira, residentes na Fazenda Cassange, localizada no Distrito de Araras - atual Distrito de Bauxi.

A partir da transmissão da responsabilidade pela guarda da devoção, a celebração em louvor a Nossa Senhora da Piedade passou a integrar a festa dedicada a Santo Antônio, realizada anualmente pela família na Fazenda Cassange. Desde então, a devoção passou a fazer parte do cotidiano da família Ferreira. A articulação entre as duas devoções consolidou um calendário religioso familiar, expressando uma característica recorrente do catolicismo popular, no qual coexistem diferentes devoções, cada uma vinculada a um santo que ocupa um lugar específico no universo simbólico dos fiéis e é reconhecido por distintas formas de intercessão e proteção.

A mudança de D. Margarida Ferreira e de seu esposo, Manoel Hilário Ferreira, da Fazenda Cassange para o então Bairro Taboão, atual Bairro Nossa Senhora da Piedade, na periferia urbana de Rosário Oeste, em 1975, não significou a interrupção da prática festiva devocional, mas sua (re)territorialização1 em um novo contexto socioespacial. Ao migrar para a cidade, a família não transportou apenas os santos de devoção, o nicho doméstico e a própria festa, mas também modos de ser, de habitar e de se relacionar com o sagrado, compartilhados com parentes, vizinhos e outras famílias oriundas da Fazenda Cassange que passaram a morar no novo bairro.

As condições de infraestrutura urbana e de moradia pouco se distinguiam daquelas vivenciadas anteriormente na Fazenda Cassange. Predominavam vias precárias, ausência de arruamento regular, inexistência de energia elétrica e de abastecimento de água encanada. As habitações eram construídas em pau a pique e a própria Capela de Nossa Senhora da Piedade, erguida inicialmente em 1958 com cobertura de palha, foi posteriormente reconstruída, em regime de mutirão, mantendo o padrão construtivo2.

É nesse novo contexto socioespacial que as famílias oriundas da Fazenda Cassange se (re)territorializam, (re)produzindo, no bairro, modos de viver e de organizar a vida comunitária que caracterizavam o território de origem. A territorialidade que se configura no bairro, marcada pela proximidade espacial e pela convivência cotidiana, possibilitou a formação e a (re)produção de redes de solidariedade, cooperação, relações de vizinhança e laços de parentesco, permitindo que práticas culturais e festivas, ancoradas no catolicismo popular, continuassem a (re)existir no espaço urbano. Nessa perspectiva, as práticas socioculturais e suas expressões materiais e simbólicas não apenas asseguram a permanência dos grupos no território, mas também atribuem sentido ao território vivido, fortalecendo os vínculos identitários e as formas de reconhecimento coletivo3.

A espacialidade do sagrado, anteriormente estruturada no espaço doméstico-rural, foi reconfigurada no novo contexto doméstico-rururbano, sem romper com as formas tradicionais de organização socioespacial da festa. A casa permaneceu como núcleo da devoção e da transmissão dos saberes, enquanto o quintal e as ruas do bairro passaram a acolher as práticas culturais e de convivência comunitária.

A memória dos moradores, familiares e dos frequentadores das primeiras festas realizadas no bairro preserva a organização espacial que marcou o início da celebração em seu novo território. As primeiras instalações onde a festa acontecia eram em um barracão construído no quintal, com madeira e coberto por folhas de babaçu, enquanto os rituais religiosos permaneciam concentrados no espaço doméstico, onde se realizavam a reza cantada, o cururu e a dança de São Gonçalo. Destacam-se também os momentos coletivos em que os participantes se reuniam para socar o milho, utilizado no preparo dos biscoitos, bem como os bailes que animavam a celebração, conduzidos pela Banda musical do Sr. Isaque (in memoriam), reconhecido músico da cidade4.

A continuidade da festa no bairro não se deu apenas no plano simbólico, por meio da preservação da devoção, da memória familiar e de sua crescente centralidade na vida comunitária. Ela também foi favorecida pelas transformações decorrentes das políticas públicas de urbanização implementadas no Bairro Taboão. A melhoria da infraestrutura, da acessibilidade e da mobilidade integrou progressivamente o bairro à malha urbana de Rosário Oeste, ampliando as condições de circulação de pessoas e conferindo maior visibilidade à celebração.

A partir da década de 1980, o bairro passou por intervenções urbanas, entre elas a abertura de vias, a implantação da rede de energia elétrica, o abastecimento de água encanada e a construção de moradias por meio do Projeto Mutirão Habitacional I5, transformando significativamente sua paisagem e suas condições de apropriação e uso. Em 1995, o poder público municipal substituiu o antigo barracão coberto com palha de babaçu por uma estrutura com cobertura de amianto (Eternit), destinada às atividades do Clube de Mães e às reuniões comunitárias. Mantido pela própria família festeira, esse espaço passou a integrar a infraestrutura da celebração, sendo utilizado durante a realização da festa para o baile e outras atividades coletivas.

Ao longo dos anos, a Festa do Taboão ampliou progressivamente as interações espaciais, extrapolando as fronteiras do bairro, passando a reunir participantes provenientes tanto de outros bairros da cidade quanto de outras localidades fora dos limites municipais. Desse modo, a celebração extrapola o âmbito estritamente comunitário, consolidando-se como referência regional de devoção, encontro e sociabilidade, requerendo o (re)ordenamento do espaço festivo

É nesse contexto que a cozinha, integrada à casa, passa por adequações para atender a demanda da festa. A cozinha tradicional foi ampliada e recebeu cobertura permanente, incorporação de utilitários modernos, que passaram a coexistir com utensílios tradicionais, como o tacuru, fornalha de barro, cocho de madeira, o pilão, dentre outros.

A ampliação de escala da festa também implicou um processo de comunitarização da festa, expresso tanto nas interações sociais inicialmente estabelecidas entre a família promesseira e os moradores do bairro quanto na participação de irmandades6 e devotos, que passam a assumir algumas adequações ao espaço físico, bem como tarefas no processo de realização da celebração. Nessa perspectiva, o significado de família amplia-se para além dos laços consanguíneos, passando a adquirir o sentido de um parentesco simbólico, como os colaboradores da festa se autodenominam: Família Taboão.

Assim, a expressão "Festa do Taboão" adquire um significado que ultrapassa uma simples referência geográfica ou administrativa de bairro. Ela revela que a celebração deixou de estar vinculada exclusivamente à família Ferreira para tornar-se uma referência cultural do próprio bairro. O lugar já não constitui apenas o cenário onde a festa acontece, mas torna-se parte constitutiva de sua identidade e de sua memória coletiva. Nessa configuração social, a fé e devoção aos santos homenageados articula-se à construção de vínculos de pertencimento e de identidade territorial, expressando formas coletivas de organização e reconhecimento comunitário.

É nessa articulação entre devoção, parentesco, cooperação e pertencimento que a festa produz e renova, a cada edição, uma territorialidade festiva compartilhada, na qual o bairro afirma-se como espaço vivido, apropriado e continuamente recriado pelas práticas do catolicismo popular. Uma territorialidade que não se expressa apenas na ocupação dos diferentes espaços da celebração, mas também na temporalidade que organiza seu acontecer, estabelecendo um ritmo próprio no qual cada atividade ocupa um lugar específico na construção do tempo festivo.

No acontecer da Festa do Taboão, como nas demais festas religiosas rosarienses, cerca de uma semana antes da realização da festa, começam os preparos do local que envolve planejamento, organização e trabalho comunitário7. Mais do que anteceder a festa, esses fazeres constituem parte dela, revelando que, no catolicismo popular, trabalho, fé e vida cotidiana se entrelaçam na produção da celebração e do espaço festivo.

A celebração possui o tempo da coleta da lenha que abastecerá os tacurus e a fornalha, da limpeza das tripas destinadas à produção da linguiça tradicional, do preparo do licor, do doce de mamão e das broas de milho, e o tempo dedicado à organização da casa e do espaço festivo que acolhera os devotos. Nesse contexto, o preparo da casa e do espaço festivo representa, simultaneamente, um ritual de cuidado material e de renovação espiritual, orientado pelos valores, pelas crenças e pela visão de mundo8 que estruturam a tradição do catolicismo popular vivida pela família Ferreira.

Uma prática incorporada mais recentemente à temporalidade da festa, mas plenamente integrada ao universo simbólico do catolicismo popular, é o percurso das bandeiras de Nossa Senhora da Piedade e de Santo Antônio pelas residências da comunidade. Mais do que um deslocamento físico, esse ritual constitui um gesto de bênção e proteção às famílias, por meio do qual o sagrado percorre o território e visita os espaços da vida cotidiana.

A incorporação desse ritual à programação da festa amplia a territorialidade da celebração para além do espaço festivo propriamente dito, ou seja, do espaço doméstico mediante a realização da ladainha, do cururu, do levantamento do mastro e comensalidade, realizada no quintal e do baile instalado na área destinada ao salão comunitário. Ao percorrer as ruas do bairro e visitar as residências, a bandeira estende simbolicamente o território da devoção, fazendo com que cada casa visitada passe a integrar, ainda que temporariamente, o espaço sagrado da festa.

Ao mesmo tempo, o ritual fortalece os vínculos de pertencimento que historicamente estruturam a comunidade. Cada visita renova relações de parentesco, vizinhança e reciprocidade, transformando a circulação da bandeira em um percurso de reconhecimento mútuo entre aqueles que compartilham a devoção e a responsabilidade pela continuidade da tradição. Esse tempo marca o retorno dos membros da comunidade, familiares que residem em outras cidades e vem participar ativamente nos preparativos da festa e/ou contribuir mediante doações de alimentos que serão utilizados na produção de alimentos que são partilhados durante os três dias da celebração.

É nesse movimento que se reafirma a identidade da denominada "Família Taboão", expressão que ultrapassa os limites da consanguinidade para designar uma coletividade unida pela fé, pela memória compartilhada e pelo compromisso de manter viva a festa.


Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.

Notas

  1. (Re) territorialização é o processo pelo qual indivíduos ou grupos sociais recriam, em um novo espaço, práticas, relações, identidades, símbolos e formas de pertencimento que lhes permitem reconstruir seu território, sem que isso implique a simples reprodução do território anterior. ↩
  2. Celestino, P ett All. Rezas e Festas Populares de Santos. In: Memórias nas Páginas.2ª Edição, 2025. ↩
  3. Bonnemaison, J. Viagem em torno do território. In: CORRÊA, Roberto Lobato; Rosendahl, Z. (orgs.). Geografia Cultural: um século (3). Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002., Lefebvre, H. A produção do espaço, ano. Lefebvre (2006) ↩
  4. Celestino, P. et al. Rezas e Festas Populares de Santos. In: Memórias nas Páginas. 2ª Edição, 2025 ↩
  5. No ano de 1983, o poder público municipal contemplou 40 casas aos moradores do Bairro, construídas em mutirão habitacional, com a mão de obra da comunidade. In: Ribeiro, D. Rosário Oeste:42 anos de promoção humana. Goiânia, 2011. ↩
  6. Sistema de cooperação e reciprocidade entre devotos e colaboradores, fundamentado na fé e no compromisso coletivo com a realização da festa. Por meio desse sistema, os participantes contribuem ativamente para a celebração, seja mediante trabalho voluntário nos preparativos, seja por meio de doações de recursos financeiros, alimentos, animais ou outros bens necessários à sua realização. ↩
  7. Loureiro, R. Cultura mato-grossense: festas de santos e outras tradições. Cuiabá: Entrelinhas,2026. ↩
  8. Um dos rituais realizados por D. Margarida antes do início da celebração consistia em incensar todos os cômodos da casa e os espaços destinados à festa com ervas aromáticas. Segundo relato de um membro da irmandade, "ela colocava as ervas em um latão de querosene e as queimava, percorrendo todos os ambientes da casa e o salão de baile" (Membro da irmandade, identidade preservada, 2025). ↩
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