A Festa de São Benedito, realizada em agosto, teve origem na comunidade rural de Ribeirão Grande, onde era celebrada no espaço doméstico entre familiares, vizinhos e devotos.
Tradicionalmente realizada durante três dias, reunia levantamento do mastro, cururu, ladainha, Tchá co’ bolo, comidas tradicionais, baile e matinê.
A organização envolvia a família e a comunidade, que compartilhavam responsabilidades, alimentos e funções relacionadas à celebração.
Com o tempo, as limitações da infraestrutura doméstica e as exigências para a realização de eventos levaram a família a transferir a festa para o espaço de eventos Mangueiral, na cidade.
Apesar da mudança, a celebração continua sendo reconhecida como “Festa do Sr. João Cristiano”, mantendo sua referência familiar e devocional.
A transferência do espaço produziu uma nova territorialidade festiva, sem romper os vínculos construídos em torno da devoção a São Benedito, da memória e das relações de parentesco.
A cada edição, os descendentes mantêm vivos os rituais, a comensalidade, a música e as formas de organização comunitária, reafirmando a continuidade da tradição.

















A festa de devoção a São Benedito, realizada no mês de agosto, pela família do Sr. João Cristiano da Silva e sua esposa, tem sua origem na comunidade rural de Ribeirão Grande, localizada a cerca de 15 km da sede do município de Rosário Oeste. Tradicionalmente celebrada no espaço doméstico da comunidade, entre parentes, vizinhos e devotos, a festividade ocorria de forma íntima, marcada pela proximidade entre os participantes e pela centralidade da casa como lugar de devoção, hospitalidade e sociabilidade.
A festa, como em grande parte das festas de santo, era realizada ao longo de três dias e organizava-se segundo uma temporalidade própria, articulando práticas religiosas, trabalho coletivo e momentos de convivência comunitária. Segundo o relato de D. Deuzanete, filha primogênita do Sr. Cristiano, o primeiro dia marcava o início da festividade, com a realização do ritual de levantamento do mastro, momento que simbolicamente dá-se início a celebração. O ritual era conduzido pelos cururueiros que, ao som da viola-de-cocho e por meio de trovas cantadas, mantêm viva essa tradição cultural. Ao final do ritual, os devotos e cururueiros eram convidados a participar da partilha do tradicional sarapatel servido pela família.
Na manhã do segundo dia, realizava-se o tradicional “Tcha co’ bolo”, acompanhado da distribuição de biscoitos preparados à base de polvilho de mandioca, seguido de almoço com pratos tradicionais da culinária local. À noite, realizava-se a celebração da ladainha em louvor a São Benedito, reafirmando a dimensão espiritual e votiva da festividade. No domingo, a programação culminava com a partilha da chamada “comida da festa do santo”, seguida da tradicional matinê, baile realizado após o almoço, animado por bandas regionais.Ao encerramento da festa, eram definidos os membros da família responsáveis pela organização da festa na edição seguinte, assumindo encargos relacionados ao financiamento, organização, distribuição das funções laborais e do reinado (juiz(a), capitão de mastro, alferes de bandeira, etc.).
Com o passar dos anos, a família do Sr. João Cristiano da Silva deixou de dispor da infraestrutura necessária para realizar a festa no espaço doméstico, em conformidade com as exigências estabelecidas pelo poder público para a realização de eventos dessa natureza. As limitações dos espaços destinados ao preparo e à conservação dos alimentos, ao acolhimento dos participantes, à realização do baile e às demais atividades festivas levaram os descendentes a buscar uma alternativa capaz de assegurar a continuidade da celebração e da tradição familiar. Nesse contexto, como estratégia de (re)existência, a celebração passa a ser realizada no espaço de eventos denominado Mangueiral, localizado na cidade de Rosário Oeste.
Dessa forma, a espacialidade do sagrado, antes ancorada no espaço doméstico-rural, foi (re)configurada em um contexto institucionalizado-urbano, preservando a tradição e produzindo uma nova territorialidade festiva sustentada pela memória coletiva, nas relações de parentesco e nas práticas culturais transmitidas entre gerações. O suporte físico da celebração transferiu-se, mas a referência identitária da festa permaneceu vinculada à família do Sr. João Cristiano da Silva, razão pela qual a celebração continua sendo reconhecida pela comunidade como “Festa do Sr. João Cristiano”.
Assim, a mudança do espaço festivo representa um processo de (re)territorialização da celebração, do qual o espaço- suporte para a realização da prática festiva desloca, enquanto o território-existencial e simbólico permanece ancorado na devoção à S. Benedito, nas redes familiares e de cooperação que sustentam a sua realização.
A cada edição, os descendentes atualizam a celebração por meio da reprodução dos rituais, de comensalidade, da música, da oralidade e das formas de organização comunitária, demonstrando que a continuidade da festa se fundamenta muito mais na permanência das práticas sociais e dos significados compartilhados do que na fixação em um espaço físico específico.
Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.
