A reza em louvor a Nossa Senhora da Guia acontece tradicionalmente em 15 de agosto, na residência de D. Ana Oliveira da Guia, na comunidade de Passagem do Chiqueirão. A celebração dá continuidade à prática votiva herdada de seus pais, Sr. Camilo Jacinto de Oliveira e D. Irene Georgina das Neves, mantendo viva uma devoção transmitida entre gerações.
Realizada em um único dia, a celebração tem a casa como espaço de devoção, hospitalidade e convivência. A imagem da santa ocupa o centro de um altar ornamentado com flores e velas, onde são realizadas a reza cantada e a ladainha. Após a oração, os devotos compartilham um jantar oferecido pela família.
Sem levantamento do mastro, baile ou música eletrônica, a celebração preserva práticas consideradas essenciais pela família, como a oração, a partilha dos alimentos e a hospitalidade. O encontro também pode ser marcado pelo surgimento espontâneo do siriri e da dança de São Gonçalo, expressões de memória, sociabilidade e devoção.






















Nossa Senhora da Guia constitui uma das devoções marianas profundamente enraizadas do catolicismo popular, sendo invocada pelos fiéis que buscam, em suas jornadas físicas ou espirituais, proteção e orientação para seus caminhos. (Sartori,2025)1 A reza em Louvor a Nossa Senhora da Guia, realizada na residência de D. Ana Oliveira da Guia, na comunidade de Passagem do Chiqueirão, ocorre tradicionalmente no dia 15 de agosto, data em que a Igreja Católica celebra a “solenidade de Assunção de Maria, ou seja, momento em que a tradição católica celebra a elevação de Maria aos céus”. (Sartori,2025).
A celebração constitui a continuidade de uma prática votiva herdada de seus pais, Sr. Camilo Jacinto de Oliveira e D. Irene Georgina das Neves. Após o falecimento de ambos, a responsabilidade pela realização da festividade foi assumida por D. Ana O. da Guia, evidenciando um processo de transmissão intergeracional da devoção e das práticas religiosas associadas à santa. A devoção ultrapassa o campo estritamente religioso e inscreve-se na trajetória de vida, no corpo e na identidade de D. Ana. O seu próprio nome expressa esse vínculo simbólico com a santa, revelando uma prática recorrente no catolicismo popular, na qual a atribuição do nome do santo ou da santa ao batizando representa uma forma de proteção, promessa ou agradecimento, fortalecendo os vínculos entre identidade, memória familiar e religiosidade.
Realizada no espaço doméstico, a celebração reafirma a centralidade da casa como lugar de devoção, hospitalidade e transmissão da tradição. No dia da festa, a imagem de Nossa Senhora da Guia deixa o silêncio do nicho, onde permanece integrada ao cotidiano da residência, para ocupar o centro da celebração, compondo um altar cuidadosamente ornamentado com flores, velas e outros elementos devocionais. Esse deslocamento simbólico transforma temporariamente o espaço doméstico em espaço ritual, conferindo nova centralidade ao sagrado.
A homenagem à santa concretiza-se na sala, por meio da reza cantada (ladainha) e da oferta de um jantar aos devotos, práticas que articulam fé, comensalidade, reciprocidade e convivência comunitária, assegurando a continuidade da devoção transmitida entre gerações. Esses momentos, profundamente simbólicos, articulam fé, partilha e reciprocidade, contribuindo para a continuidade simbólica de devoção e fé à N.S. da Guia, atualizada pelas gerações da família de D. Ana da Guia.
A celebração realizada por D. Ana é representativa de muitas famílias que realizam festas votivas de Rosário Oeste que, diante das limitações financeiras e das exigências contemporâneas para a realização de grandes festividades, permanecem celebrando a promessa no interior de seus lares. Sem baile, música eletrônica ou levantamento do mastro, a celebração preserva os elementos essenciais da tradição: a reza cantada, a partilha gratuita dos alimentos e os gestos de hospitalidade que dão sentido ao compromisso votivo assumido com a santa de devoção. Sem uma programação previamente estruturada, a celebração organiza-se a partir das relações que se constroem no próprio encontro, no qual as lembranças das antigas festas da comunidade são continuamente atualizadas. É nesse contexto que manifestações como o siriri e a dança de São Gonçalo emergem de forma espontânea, não como apresentações destinadas ao público, mas como expressões da memória coletiva, da sociabilidade e da devoção que continuam produzindo, ainda que temporariamente, o espaço festivo.
Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB I- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.
Notas
- História de Nossa Senhora da Guia: Protetora e Guia dos Fiéis , 2025. ↩
