O rio

O Rio Cuiabá é parte fundamental da história, da cultura e da identidade de Rosário Oeste. Mais do que um elemento natural, o rio constitui um território vivido, marcado por memórias, práticas culturais, religiosidade popular e modos de vida ribeirinhos. Ao longo de suas águas surgiram comunidades, festas religiosas, saberes tradicionais, narrativas e expressões culturais que seguem conectando fé, natureza e pertencimento entre gerações.

O termo “rio acima” é utilizado como orientação espacial para indicar a localização relacional de um ponto geográfico em direção à montante do rio, isto é, em direção a sua nascente e contra a correnteza do rio. Quando o deslocamento ocorre em direção à jusante do rio, isto é a sua foz, utiliza-se a expressão “rio abaixo”.O ponto de referência para tal delimitação era o Porto Geral da Vila de Cuiabá, de onde saiam e/ou entravam as mercadorias oriundas tanto das localidade situadas rio acima quanto aquelas rio-abaixo destinadas ao mercado externo, via rio Paraguai.Essa classificação regional evidencia a importância do Rio Cuiabá no processo de ocupação territorial e na circulação das mercadorias, fluxo de pessoas e informações. 

A pesca e agricultura de subsistência possibilitaram a formação de um pequeno povoado no século XVIII, cuja fundação se deu também com a construção da capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário. O rio e a religiosidade marcaram a história desse lugar e foram inscritos nos diferentes nomes que Rosário Oeste recebeu.

A incorporação de Nossa Senhora do Rosário vinculando-a à toponímia geográfica Rio Acima, trata-se de uma linguagem que articula política territorial e identidade, do qual a religião (base simbólica) e o rio Cuiabá (base material e simbólica) da vida social, constituem eixos estruturadores e complementares na construção da identidade do lugar. 

O rio Cuiabá além de configurar como elemento estruturador da circulação, do transporte, das atividades econômicas e da formação dos povoados, constitui, também, um elemento central na construção da identidade e da geograficidade dos assentamentos humanos ribeirinhos. 

Ao longo do curso do rio Cuiabá, desenvolveram práticas espaciais que contribuíram para a construção de um modus vivendi, de ser e viver ribeirinho, marcado por relações cotidianas, sociais e culturais em estreita relação com a dinâmica das águas, seus mitos e o sagrado. Para esses moradores, o rio como parte de seu cotidiano, significa fonte de subsistência, de (re)produção da vida social, espaço do ócio e do lazer e das manifestações culturais e das práticas religiosas.

O rio Cuiabá não se configura apenas como um elemento natural da paisagem, mas como território vivido, carregado de significados, memórias e práticas socioculturais que se reproduzem ao longo das gerações, reforçando a identidade ribeirinha e a relação simbólica entre água e a religiosidade popular, uma vez que é por meio dela que muitos fenômenos naturais são explicados, interpretados e ritualizados.

Assim, rio e religiosidade estão conectados e não constituem meros indicadores espaciais ou administrativos, mas fazem parte de uma teia de narrativas que expressam formas simbólicas de apropriação do espaço por um dado grupo social, modos de ser, viver e relacionar com a natureza, com o sagrado e modos de organização social em um determinado momento histórico (Correa, 2007) e que contribuem para a formação de uma identidade territorial.

A título de exemplificação da relação entre natureza, fé e território, destaca-se a Festa do Divino Pai Eterno, realizada na comunidade rural do Pai Eterno, cuja devoção se vincula à narrativa do aparecimento da imagem do santo nas águas do Rio Cuiabá. 

Segundo relatos da comunidade, no local onde a imagem foi encontrada, às margens do rio, foi edificada uma capela que, posteriormente, foi destruída pelas águas durante o período das cheias, evento que, na linguagem local, é denominado “dilúvio”, em referência às grandes inundações do rio Cuiabá. Após esse episódio, registra-se a edificação da capela e a nomeação do Divino Pai eterno, como Padroeiro e protetor da comunidade. Assim, a manifestação do sagrado nos elementos da natureza transforma o espaço em lugar de devoção e celebração, onde a memória, a fé e a experiência vivida reforçam a sacralização do território.

Pelos caminhos das águas circulam as imagens dos santos e as bandeiras esmoleiras, conectando comunidades e famílias e assegurando a continuidade das práticas festivas devocionais. Nas casas preservam o hábito de cultivar um nicho ou altar, onde rica e complexa iconografia é encontrada: quadros e estátuas de santos de devoção, às vezes incluindo-se mães-d’água e pretos velhos, velas, santinhos impressos em papel. (Campos, 2014, p.89).

Às margens do rio mora uma população que se exprime o cotidiano na linguagem da forma (Drumond, 1978), (re)produzida no saber/fazer transmitido pela oralidade, como a construção de canoas, a confecção de cerâmica e a elaboração de instrumentos musicais que enriquecem suas práticas culturais possuem a sua origem do meio ambiente circunvinzinho.

 Um exemplo ilustrativo é a viola-de-cocho, um objeto musical utilizado nas manifestações culturais do cururu e nos levantamentos de mastros nas festividades dedicadas aos santos. A palavra “cocho” origina-se da técnica de escavação da caixa de ressonância da viola em um tronco de madeira sólido, que é a mesma empregada na confecção dos recipientes utilizados para armazenar alimentos destinados ao gado. (Dossiê IPHAN 2009).

Às margens do rio, convive uma comunidade cujos integrantes “falam a linguagem do rio” (Drumond, 1978), que inclui termos como: viola de cocho, ganzá, jacás (cesto para depositar peixe na água), sarãs (vegetação ribeirinha), canoa, pacu,rede, cururu, siriri, lufada, rio deu praia (vazante), nas águas(período de chuva), comer água (embriagar), comer cabeça de pacu (lenda). Essas expressões remetem às vivências e às práticas sociais que emergem da convivência cotidiana com o rio. Assim, o jacá, a rede, a canoa, o peixe, o sarã, pacu, a viola de cocho, o ganzá não são apenas objetos (formas) ou elementos naturais, mas fazem parte de um modo de vida que representa saberes e conhecimentos sobre a dinâmica e o tempo do rio, das cheias, da vazante e das práticas de pesca. Assim, quando o ribeirinho diz: “Subiu uma lufada. Demais de peixe. Ê ha!”, faz referência à migração dos peixes em direção às cabeceiras dos rios, sendo “Ê ha!” uma expressão que indica espanto ou admiração diante da abundância de peixes. (Drumond, 1978).

O rio, como um espaço vivido e de vivência, é carregado de significados e construídos a partir das experiências e práticas cotidianas dos sujeitos e que fazem parte da constituição da identidade cultural e territorial das comunidades ribeirinhas.

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