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No Livro de Celebrações do IPHAN, as festas populares entram como parte dos rituais que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social.

Nesse sentido, é preciso compreender que a cultura é espacializada e que o espaço geográfico não somente funciona como lugar de possibilidade do acontecer cultural, mas também se constitui como parte significativa dessas manifestações. Aqui, podemos citar, por exemplo, as manifestações religiosas. As igrejas, os templos, os locais de peregrinação, as festas de devoção, entre outros, são espaços sagrados necessários às manifestações de fé e devoção, sendo, ao mesmo tempo, condição material e imaterial para a realização de tal prática cultural.

De acordo com o IPHAN, os lugares, enquanto parte dos bens materiais e imateriais que são protegidos e salvaguardados, correspondem ao “espaços onde a cultura se vive, se troca e se renova: feiras, mercados, praças, santuários e tantos outros lugares que servem de palco para a convivência e a expressão cultural”. No caso de Rosário Oeste, essas expressões culturais são praticas em diferentes cantos da cidade. O título do nosso inventário “Cantos do Rosário” reúne sentidos geográficos, culturais e simbólicos que dialogam diretamente com o escopo do projeto. Em primeiro lugar, “cantos” remete aos espaços do município onde a vida acontece, aos cantos da cidade e das comunidades, aos microterritórios que não estão no centro, mas que sustentam a cultura cotidiana. Esses cantos podem ser entendidos como lugares de encontro, onde se constroem vínculos, identidades e práticas de cuidado, muitas vezes fora dos circuitos oficiais de reconhecimento.

Os cantos podem se tornar lugares cheios de significado que incorporam a experiência e as aspirações das pessoas, evocam memórias e expressam pensamentos, ideias e emoções diferentes, uma vez que, antes de qualquer coisa, são espaços existenciais, por meio dos quais damos sentido ao mundo e agimos no mundo.

Ao mesmo tempo, “cantos” evoca o ato de cantar, os cânticos religiosos e as rezas entoadas coletivamente durante as festas de santo. Esses cantos atravessam ruas, casas, igrejas, rios e quintais, produzindo paisagens sonoras que marcam o território e ativam memórias compartilhadas. O canto, nesse sentido, é uma forma de ocupar o espaço, de torná-lo vivido, sentido e reconhecido.
Nas festas de santo de Rosário Oeste, diversos lugares se transformam em territórios simbólicos e afetivos. Entre eles estão as capelas e igrejas que marcaram historicamente a territorialidade católica no município, como a antiga capela de Nossa Senhora do Rosário, no Monjolo, e a igreja matriz construída no século XIX. Também se destacam as capelas das comunidades rurais, como Figueira, Pindaival, Sítio Lambari, Igrejinha, Sales, Pai Eterno, Barreiro Vermelho e Passagem do Chiqueirinho, que estruturam o calendário festivo e organizam a vida comunitária em torno do santo padroeiro.

Além dos espaços religiosos formais, as festas acontecem nas casas dos promesseiros, nos quintais e nas residências familiares, tanto na zona rural quanto na urbana. Esses espaços domésticos tornam-se altares vivos, onde imagens de santos são colocadas em destaque e onde a reza cantada ecoa. Na cidade, bairros como Taboão, Rua da Barra, Nossa Senhora Aparecida, Santa Isabel e Torre passaram a concentrar famílias vindas do campo que trouxeram consigo seus santos e suas tradições, recriando ali seus territórios de devoção. Um exemplo emblemático é o espaço festivo do Mangueiral, construído no Bairro Nossa Senhora Aparecida para celebrar o Divino Espírito Santo, reunindo altar, barracões, cozinha e área de baile em um mesmo lugar.

A festa também ocupa os espaços da preparação e da partilha: cozinhas comunitárias, barracões, fogões a lenha e tacurus, áreas destinadas ao leilão e ao bingo, mesas montadas sob árvores e tendas improvisadas. O trajeto da procissão pelas ruas, e em alguns casos pelo rio Cuiabá, delimita simbolicamente o território da celebração. Da mesma forma, os caminhos percorridos pela bandeira esmoleira e pelas cavalgadas ampliam esse território, conectando casas, bairros e comunidades rurais.

Assim, igreja, capela, casa, quintal, rua, bairro, barracão, cozinha e trajeto da procissão não são apenas cenários da festa. São lugares vividos, apropriados coletivamente, onde fé, memória, trabalho e convivência se entrelaçam, produzindo identidade e pertencimento.

Cantos do Rosário expressa a ideia de que o território rosariense é tecido por vozes, encontros e deslocamentos. Cada festa, cada comunidade e cada celebração constitui um canto específico, singular, mas conectado aos demais por redes de sociabilidade, fé e cuidado. O título sintetiza, portanto, a proposta do projeto de mapear, registrar e valorizar esses lugares-cantos e esses cantos-voz, reconhecendo-os como expressões fundamentais da cultura, da memória e do patrimônio em Rosário Oeste.

Zuleika Alves Arruda

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