Realizada em novembro, na comunidade rural de Ribeirão Grande, a Festa de Nossa Senhora Aparecida é uma tradição preservada pelos descendentes do Sr. Luiz Augusto da Silva e de D. Jovina F. da Silva. Após o falecimento do casal, em 2015 e 2016, respectivamente, a continuidade da celebração passou a ser assumida pelos treze filhos.
Anteriormente realizada durante três dias, a festa atualmente acontece em apenas um dia. A ladainha em louvor à santa inaugura o tempo ritual da celebração, seguida pela partilha gratuita de alimentos, pelo festival de prêmios (bingo), pelo leilão de pratos típicos e pelo baile.
Os preparativos envolvem familiares de diferentes gerações, que se reúnem no quintal para produzir biscoitos, licores, carnes e outros alimentos tradicionais. Durante a festa, a casa e seu entorno são reorganizados para acolher os participantes, transformando temporariamente o espaço doméstico em lugar de devoção, convivência e memória.
O leilão e o bingo contribuem para o custeio da festa seguinte, enquanto o trabalho coletivo e a partilha fortalecem os vínculos entre familiares, devotos e comunidade.
























A festa de Nossa Senhora Aparecida, realizada no mês de novembro na comunidade rural de Ribeirão Grande pelos descendentes do Sr. Luiz Augusto da Silva e D. Jovina F. da Silva, configura-se como uma prática cultural vinculada ao catolicismo popular e à devoção mariana, tradicionalmente preservada no âmbito familiar.
A realização da louvação a Nossa Senhora Aparecida foi assumida por D. Jovina F. da Silva, após o falecimento de D. Georgia da Silva, irmã do Sr. Luiz Augusto, que durante muitos anos organizou a festividade no município de Rosário Oeste. Com essa transição, a celebração foi incorporada ao âmbito doméstico e familiar de D. Jovina e do Sr. Luiz Augusto, assegurando a continuidade da devoção e da prática festiva entre seus descendentes.
Após o falecimento do Sr. Luiz Augusto, em 2015, e de D. Jovina, em 2016, a continuidade da tradição familiar passou a ser assumida pelos treze filhos do casal, revelando como a fé e a memória coletiva se entrelaçam na produção do espaço festivo e na permanência de práticas do catolicismo popular. No entanto, algumas adequações foram realizadas na organização da festa. Anteriormente celebrada ao longo de três dias, a festa passou a ser realizada em apenas um dia.Segundo os relatos dos familiares, anteriormente a festividade tinha início na sexta-feira com o levantamento do mastro, momento que marcava simbolicamente a abertura da celebração.
Nesse ritual, os cururueiros se faziam presentes, conduzindo cantos e improvisos que animavam o ambiente com o ritmo característico do cururu, conferindo à celebração uma atmosfera alegre e festiva. Ainda nesse dia realizava-se a vaquejada, prática que consistia em laçar uma vaca, posteriormente doada à santa para servir de alimentação no dia da festa.
No sábado, as atividades iniciavam-se com o momento do tradicional “Tchá co’ bolo”, seguido do almoço, quando eram servidos e partilhados pratos típicos entre familiares, devotos e comunidade. Ao final do dia, realizava-se também a ladainha em louvação a Nossa Senhora Aparecida, reunindo familiares e comunidade em um momento de oração e devoção coletiva.
No domingo, último dia da programação, mantinha-se a partilha da alimentação entre os participantes e realizava-se a tradicional matinê no barracão construído pela família para esse fim. Esse momento festivo constituía-se como espaço de encontro e confraternização entre familiares, devotos e membros da comunidade, prolongando-se até aproximadamente as 20 horas e encerrando o ciclo das celebrações com a escolha dos festeiros que assumiram a festa do ano seguinte.
Na atualidade, a celebração passou a ser realizada em apenas um dia, concentrando sua programação principalmente na ladainha em louvação a Nossa Senhora Aparecida e em momentos de sociabilidade, entretenimento e lazer entre os participantes ao longo do dia. Mesmo com a redução do tempo festivo, alguns elementos tradicionais permanecem, como a prática da comensalidade gratuita, que envolve a preparação e a partilha coletiva de alimentos entre familiares, devotos e visitantes, fortalecendo os vínculos de convivência e pertencimento.
A programação inclui ainda o festival de prêmios (bingo) e o leilão de pratos típicos, como bolinhos de carne, linguiça empanada, pernil frito e licor de leite, cuja arrecadação é destinada ao custeio da festividade do ano seguinte. Mais do que mecanismos de obtenção de recursos, essas práticas constituem importantes formas de mobilização comunitária, articulando devoção, trabalho coletivo e reciprocidade.
No dia que antecede a festa, mulheres, homens e jovens reúnem-se no quintal da casa, em torno da antiga fornalha de barro, para preparar os alimentos que compõem a celebração. Enquanto um grupo se dedica à produção dos tradicionais biscoitos, outros ocupam a cozinha no preparo do licor e do licor de leite, e a varanda da residência transforma-se em espaço destinado ao corte das carnes que serão utilizadas no churrasco e em outros pratos da festa.
A área situada em frente à residência, onde se realiza a ladainha e, posteriormente, o anúncio do bingo e a exposição das prendas, recebe uma ornamentação cuidadosamente planejada. Se, no passado, os enfeites eram confeccionados artesanalmente pela própria família, hoje incorporam elementos gráficos cuja representação simbólica remete à imagem da santa.
Nesse contexto, as diferentes apropriações, temporária do espaço doméstico são ressignificadas e articuladas em um mesmo sistema espacial festivo, no qual rituais, práticas produtivas, saberes alimentares e relações de sociabilidade se entrelaçam, transformando a casa em um território da devoção, da memória e experiência vivida.
À medida que a festa se aproxima, a paisagem do quintal transforma-se com a instalação de tendas destinadas à venda de bebidas e ao acolhimento dos participantes durante o almoço e a realização do bingo. Essa reorganização espacial decorre da insuficiência do barracão construído pela família, que permanece destinado principalmente à realização do baile. Para viabilizar a infraestrutura necessária, a família estabelece uma parceria com a empresa responsável pela comercialização das bebidas, que instala as tendas e, em contrapartida, disponibiliza mesas e cadeiras para uso durante a celebração.
Diferentemente das tradicionais festas de santo rosarienses, nas quais o levantamento do mastro marca simbolicamente o início da celebração, na festa realizada pela família do Sr. Augusto é a ladainha que inaugura o tempo ritual da festividade. A partir da reza cantada, a promessa se atualiza e a celebração se desdobra na partilha gratuita dos alimentos, no bingo e no baile, momentos que articulam devoção, hospitalidade e sociabilidade. Dessa forma, a festa integra práticas religiosas, saberes culinários e formas de cooperação que asseguram sua continuidade e reafirmam os vínculos de pertencimento, solidariedade e identidade que sustentam a celebração na comunidade.
Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.
