Lavagem de S. João Batista – Comunidade Sítio Nicolau

Ver álbum completo no Flickr

A comunidade Sítio Nicolau, localizada às margens do rio Cuiabá, na zona rural de Rosário Oeste, mantém a tradição da Lavagem de São João Batista. No dia 24 de junho, às cinco horas da manhã, os fogos de artifício rompem o silêncio da madrugada e anunciam à comunidade o início do ritual, renovando o compromisso com o santo. O cortejo parte da capela dedicada a São João Batista e percorre aproximadamente dois quilômetros até alcançar as águas do rio. À frente, os festeiros conduzem a imagem do santo, seguidos pelos fiéis, que levam imagens de outros santos, rezam e entoam o hino de São João Batista. Na sequência, vêm os fogueteiros, cujos fogos de estampido acompanham a caminhada e marcam a passagem do cortejo pelo caminho. Ao chegar à margem do rio, a água passa a integrar o próprio ritual, tornando-se parte essencial da experiência de devoção.

No âmbito do catolicismo popular, a lavagem do santo é compreendida pelos devotos como um momento de renovação da fé e de busca por proteção que evoca simbolicamente o episódio bíblico do batismo de Jesus realizado por João Batista no rio Jordão. Conforme observa Loureiro (2006)1 os fiéis acreditam que a lavagem do Santo abençoa as águas para que estas sejam abundantes no ano seguinte. Durante a cerimônia, é costume os devotos lavarem os pés, rosto, mãos e outras partes do corpo nas mesmas águas em que a imagem do santo é banhada. Também é comum que os devotos recolham parte dessa água em pequenos frascos, atribuindo-lhe um caráter sagrado. Guardada como “água benta”, ela pode ser utilizada posteriormente em momentos considerados de necessidade espiritual ou diante de situações relacionadas à saúde e à cura de algum mal físico. Outra prática realizada pelos fiéis é observar a sua imagem refletida nas águas do rio. Acredita-se que, se alguém não constatar a imagem refletida na água, não estará vivo para celebrar a festa do ano seguinte.

No ritual, cabe ao festeiro conduzir o momento da lavagem do santo. Ao som do coro dos devotos, que entoa o cântico de louvor a São João Batista, o festeiro realiza o gesto simbólico da lavagem da imagem, evocando a representação do batismo de Cristo no rio Jordão. Em seguida, os fiéis participam do ritual: a imagem de São João Batista é elevada sobre a cabeça do devoto que se coloca diante dela, em um gesto de fé e devoção, na busca por bênção e proteção.

Encerrado esse momento, o cortejo retoma seu percurso de retorno à comunidade. Entre rezas e cânticos, os participantes seguem até as residências dos devotos que, impossibilitados de acompanhar o ritual no rio, recebem a visita do santo, reafirmando os laços de fé, cuidado e solidariedade que articulam a comunidade. Nesses espaços, a celebração se prolonga por meio da lavagem e da bênção aos devotos, especialmente àqueles que se encontram acamados ou impossibilitados de se deslocar. Para esse momento, é preparado cuidadosamente um recipiente com água, utilizado pelo festeiro na realização do gesto ritual de lavagem e bênção. O ritual da lavagem encerra na capela de São João Batista, mediante a realização de cânticos e rezas de louvor ao santo.


Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB I Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.

Notas

  1. Loureiro, R. Cultura mato-grossense: Festas de Santo e outras tradições. Entrelinhas, 2006, p. 49. ↩
plugins premium WordPress
Rolar para cima