Realizada anualmente em agosto, na comunidade rural de Ribeirão Grande, a Festa de São Bento e Nossa Senhora Aparecida tem origem em um pacto votivo assumido pelo Sr. Rozeno Lima da Silva. Após seu falecimento, a tradição foi continuada por seu filho, Sr. Tolentino da Silva, e sua esposa, Marlene P. da Silva. Atualmente, a organização é compartilhada entre seus descendentes, mas a celebração permanece conhecida como “Festa do Sr. Tolentino de Ribeirão Grande”.
A festa reúne duas devoções que se complementam. Nossa Senhora Aparecida é reconhecida como protetora da família e do lar, enquanto São Bento é associado à proteção da vida cotidiana, do trabalho no campo e contra animais peçonhentos. Essa dupla devoção está presente nos mastros e na sequência da ladainha, dedicada inicialmente a Nossa Senhora Aparecida e, depois, a São Bento.
A casa e o quintal constituem o centro da celebração. Enquanto a sala se transforma temporariamente em espaço de oração e memória, a varanda, a cozinha e o quintal acolhem os preparativos, o trabalho coletivo e a convivência entre familiares, vizinhos e visitantes. O leilão de prendas e a venda de bebidas também contribuem para o custeio da festa.
Durante a ladainha, a memória do Sr. Tolentino se faz presente junto aos santos, reafirmando os vínculos afetivos e familiares que sustentam a continuidade da promessa.






















A Festa de São Bento e Nossa Senhora Aparecida, realizada anualmente no mês de agosto, constitui uma das tradicionais celebrações do catolicismo popular da comunidade rural de Ribeirão Grande, localizada a aproximadamente 15 km da sede do município de Rosário Oeste. A origem da celebração está vinculada a um pacto votivo assumido pelo Sr. Rozeno Lima da Silva, que instituiu a devoção aos santos como forma de agradecimento e compromisso religioso. Após o falecimento do Sr. Rozeno e de sua esposa, a responsabilidade pela continuidade da festa foi assumida por seu filho, Sr. Tolentino da Silva, e por sua esposa, Marlene P. da Silva, assegurando a permanência da tradição no âmbito familiar.
Com o falecimento do Sr. Tolentino, em 2023, a responsabilidade pela organização da celebração passou a ser compartilhada entre seus descendentes, assegurando a continuidade do compromisso devocional herdado das gerações anteriores. Mesmo com a sucessão da geração, a celebração permanece popularmente conhecida como "Festa do Sr. Tolentino de Ribeirão Grande". Uma denominação recorrente das festas de santo rosarienses, nas quais o nome da família festeira e local de residência, passa a identificar a própria manifestação cultural1.
Embora sua filha, Rosana da Silva, desconheça a origem da promessa familiar a São Bento, ela reproduz uma representação amplamente difundida entre as populações rurais da Baixada Cuiabana, segundo a qual o santo é reconhecido como protetor contra animais peçonhentos. Uma crença do qual as representações transmitidas pela tradição oral permanecem no cotidiano das pessoas e orientam as práticas da devoção familiar.
Outra característica recorrente do catolicismo popular, igualmente presente nesta celebração, é a coexistência de diferentes devoções em um mesmo sistema ritual e espacial. Enquanto Nossa Senhora Aparecida é invocada como protetora da família e do lar, São Bento é reconhecido como guardião da vida cotidiana, do trabalho no campo e da proteção contra os perigos que ameaçam o espaço rural. Essa complementaridade devocional materializa-se na própria organização espacial e ritual da festa, sendo perceptível tanto na instalação dos mastros em frente à residência da família festeira quanto na sequência da ladainha, em que os cânticos de louvor são dirigidos, inicialmente, a Nossa Senhora Aparecida e, em seguida, a São Bento, reafirmando simbolicamente a proteção compartilhada sobre a família, a casa e o território.
Mais do que um sistema de crenças, o catolicismo popular passou a nutrir práticas sociais e culturais, moldando relações comunitárias, orientando modos de produção e estruturando formas de ser, de viver e celebrar. Nesse sentido, a religiosidade popular, não representa uma versão incompleta da religião institucional, mas um sistema simbólico próprio, no qual fé, cultura e cotidiano se articulam de modo indissociável2.
Assim como em outras festas votivas realizadas no meio rural, a celebração preserva a centralidade da unidade doméstica como eixo organizador da vida festiva. A casa constitui o núcleo do espaço sagrado, abrigando a ladainha e os momentos de oração, enquanto a varanda e o quintal concentram as atividades que articulam trabalho, convivência e preparação da festa. Nesse espaço, as práticas produtivas e as relações de sociabilidade coexistem: a cozinha tradicional, organizada em torno dos tacurus, estende-se para a área externa, onde, à sombra das árvores, as mulheres preparam as iguarias destinadas ao leilão, os homens organizam o churrasco comunitário e familiares, vizinhos e visitantes compartilham conversas enquanto aguardam as refeições. É também no quintal que se localizam o salão de festas e os banheiros, construídos posteriormente em atendimento às exigências do poder público, evidenciando que, embora a infraestrutura tenha sido adaptada às novas demandas, a lógica de organização da celebração permanece ancorada na espacialidade doméstica e nas formas tradicionais de sociabilidade.
É, contudo, na sala da casa, onde o nicho dos santos integra o cotidiano da família, que a dimensão mais íntima da celebração se revela. Durante a ladainha, esse espaço doméstico converte-se temporariamente em lugar de oração, memória e devoção. Os cânticos de louvor não se dirigem apenas aos santos festejados; eles também atualizam a lembrança do Sr. Tolentino, cuja presença permanece viva na memória dos familiares e na continuidade da promessa que ajudou a preservar. Entre orações e cantos, a emoção manifesta-se nos gestos, nos silêncios e nas vozes dos participantes, evidenciando que a celebração não apenas renova o compromisso religioso, mas também reafirma os vínculos afetivos e a herança familiar que sustentam a tradição.
A manutenção da celebração continua fundamentada, sobretudo, no compromisso assumido pela família festeira, que permanece responsável pela maior parte dos custos da festa. Nesse contexto, o leilão de prendas e a comercialização de bebidas, sob responsabilidade dos membros mais jovens da família, em um espaço destinado a essa finalidade, constituem estratégias de sustentabilidade da própria tradição, contribuindo para custear parte das despesas da celebração e assegurar sua continuidade.
Realizado simultaneamente ao baile, o leilão marca o momento em que devoção, sociabilidade e reciprocidade se articulam de forma mais evidente. Enquanto a música regional reúne diferentes gerações no salão, os lances dados sobre as prendas expressam o apoio coletivo à festa e o compromisso compartilhado com sua permanência. Encerrada a programação pública, a celebração retorna ao espaço familiar com a preparação da tradicional feijoada cuiabana, elaborada com as partes do boi não utilizadas durante a festa, prolongando a convivência entre os familiares e encerrando o ciclo festivo, reafirmando valores de partilha, reciprocidade e continuidade que estruturam a celebração.
Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.
Notas
- ALMEIDA, M. G. ; VARGAS, M. A. M.; MENDES, G. F. (2011) Territórios, paisagens e representações: um diálogo em construção. Mercator (UFC), v. 10, p. 23-35. ↩
- Brandão, C. R. Memória do Sagrado Estudos de religião e ritual In: A Partilha da Vida – Livros e outros escritos de Carlos Rodrigues Brandão ↩
