A Festa de São José é uma tradição de devoção familiar iniciada na comunidade rural Nicolau e preservada pelos descendentes de D. Maria Isolina e do Sr. Américo Batista da Silva. Após permanecer interrompida por cerca de trinta anos, a celebração foi retomada em 2003, a partir de um compromisso renovado pela família.Atualmente, a festa possui uma característica singular: seu espaço de realização é itinerante. Como os familiares vivem em diferentes localidades, a celebração acontece, a cada ano, na comunidade onde reside a família responsável por sua organização. Em 2025, foi realizada na Comunidade Cachoeirinha e, em 2026, a responsabilidade passou para uma nova geração da família.Realizada ao longo de dois dias, a programação reúne missa, reza cantada, partilha gratuita de alimentos, leilão, baile e matinê. Os preparativos são realizados em mutirão, envolvendo familiares e amigos no preparo das comidas, na organização do espaço e na realização da festa.O encerramento é marcado pela entrega da imagem de São José aos festeiros do ano seguinte, gesto que simboliza a transmissão do compromisso de manter a devoção e organizar a próxima celebração.






















A festa de devoção a São José, celebrada pelos descendentes do Sr. Benedito Lemes da Silva e de sua esposa, D. Isolina da Silva, tem sua origem na comunidade rural Nicolau, situada no Distrito de Arruda, região tradicional da Baixada Cuiabana. Tradicionalmente, a celebração era realizada no dia 19 de março, data dedicada ao santo. No entanto, em razão do período chuvoso característico desse mês, bem como por coincidir com o tempo litúrgico da Quaresma, a realização da festa foi posteriormente transferida para o terceiro sábado do mês de maio, buscando melhores condições para sua organização e participação dos devotos.
Sua realização fundamenta-se, sobretudo, na devoção familiar ao santo, evidenciando a permanência de práticas religiosas transmitidas entre gerações. A escolha de São José não ocorre de forma aleatória, pois ele é reconhecido como o patrono das famílias e pai adotivo de Jesus, associado a valores como cuidado, proteção, trabalho e amor, elementos que dialogam diretamente com a trajetória social e cultural dessa família, marcada por vínculos com o meio rural e com formas tradicionais de organização da vida. As cores amarelo e marrom, tradicionalmente associadas a São José, bem como o lírio branco, símbolo de sua pureza e santidade, são incorporadas à ornamentação e à organização do espaço festivo, constituindo elementos simbólicos que marcam a identidade visual e religiosa da celebração.
A tradição festiva foi inicialmente organizada pelos antepassados da família, sendo posteriormente assumida por D. Maria Isolina e seu esposo, Sr. Américo Batista da Silva, que se tornaram responsáveis por manter viva a prática devocional herdada de gerações anteriores. Após o falecimento do Sr. Américo, a responsabilidade pela continuidade da celebração foi transmitida à filha do casal, D. Rozina Antônia, evidenciando um processo de transmissão intergeracional da devoção e da tradição religiosa popular
Durante anos, D. Rosina manteve a realização da festa no Sítio Soldador, espaço rural ligado à história da família. Contudo, após a sua mudança para a cidade de Rosário Oeste e posteriormente Cuiabá, a celebração deixou de ser realizada, permanecendo interrompida por cerca de trinta anos. Nesse intervalo, a guarda do santo ficou para o seu filho de D. Izolina, Sr. Leonidio Batista da Silva, e sua esposa D. Santina Eva Batista, revelando como as práticas festivo-religiosas no meio rural frequentemente dependem do engajamento de determinados membros da família que assumem a função de guardiões da tradição, responsáveis por mobilizar parentes, organizar os rituais e manter os vínculos comunitários em torno da devoção ao santo.
A retomada da festa ocorreu no ano de 2003, quando D. Rozina, filha de D. Maria Izolina, relatou ter tido um sonho com sua mãe, no qual ela manifesta descontentamento com a interrupção da devoção ao santo da família. Segundo o relato, sua mãe teria dito: “Para reunir para fazer aniversário, vocês reúnem. Mas, para rezar para o meu santinho, não!”. O episódio foi compartilhado durante uma reunião familiar realizada por ocasião de seu aniversário, quando parentes estavam reunidos sob a sombra de um pé de limoeiro. A narrativa do sonho mobilizou a família, que interpretou o acontecimento como um chamado para retomar a prática devocional interrompida, decidindo, naquele momento, renovar a fé e o compromisso da família, retomando a celebração da festa.
A reorganização da festa também levou em consideração as transformações na dinâmica territorial da família ao longo do tempo. Enquanto alguns membros permaneceram no Sítio Nicolau, outros passaram a residir na Comunidade Cachoeirinha e/ou Tenda, situada no município de Acorizal. Diante dessa dispersão espacial, a família estabeleceu um acordo coletivo: a festa passaria a ser realizada alternadamente entre essas duas localidades, seguindo um calendário definido ao final de cada celebração. Assim, a cada ano, o local de realização da festa corresponde à residência da família responsável por assumir a organização do evento.
Mais recentemente, no ano de 2025, a celebração foi realizada na Comunidade da Cachoeirinha com a presença de todos os filhos de Dona Maria e do Sr. Américo, em um gesto de união e continuidade. Em 2026, a responsabilidade pela realização da festa passa para a nova geração: a neta, Sra. Vânia Silva, juntamente com seu esposo, Sr. Abel Rodrigues, familiares e amigos, que dão sequência a essa tradição tão significativa, na comunidade rural da Cachoeirinha, evidenciando a continuidade da devoção no interior da família ao longo das gerações.
Assim como em outras festas votivas da região, a organização da celebração fundamenta-se no compromisso assumido pela família festeira, responsável por mobilizar parentes, amigos e colaboradores na preparação dos rituais e das atividades festivas. Ao longo de dois dias, a programação articula celebrações religiosas e momentos de convivência, revelando a estreita relação entre devoção, reciprocidade e participação comunitária.
Na sexta-feira, antes mesmo da chegada dos devotos, os primeiros familiares reúnem-se na comunidade Cachoeirinha para iniciar os preparativos da festa. O trabalho começa cedo: realizam o abate dos suínos e bovinos, organizam o barracão, preparam a decoração e providenciam a alimentação daqueles que, unidos em mutirão, dedicam o dia à construção da celebração.
No sábado pela manhã, os devotos reúnem-se na Capela de São Pedro, na comunidade Cachoeirinha, para a celebração da missa em louvor a São José. Em seguida, a partilha dos alimentos transforma o barracão em um espaço de convivência, acolhimento e reencontro entre familiares, vizinhos e participantes da festa.
À noite, a ladainha cantada reúne os devotos em um momento de oração que mantém viva a tradição religiosa da família e da comunidade. Em seguida, o baile e o leilão de prendas dão continuidade à programação festiva. Preparadas pelos próprios familiares, entre elas: linguiça, bolinhos de carne empanada, pernil frito e licor de leite, as prendas revelam o envolvimento coletivo na organização da festa e fazem da culinária uma importante forma de participação e partilha.
No domingo, a celebração prossegue com o almoço comunitário e a matinê, prolongando os encontros entre familiares, vizinhos e devotos. O encerramento é marcado pela entrega simbólica da imagem de São José aos festeiros que assumirão a responsabilidade pela edição seguinte. Mais do que um rito de entrega do santo, esse gesto representa a transmissão de um compromisso familiar, assegurando a continuidade da devoção, da organização da festa e dos saberes que mantêm viva essa tradição na comunidade.
Sustentada pelo compromisso assumido sucessivamente pelos membros da família, a Festa de São José permanece como uma tradição em permanente (re)criação. Ao transmitir, de geração em geração, a responsabilidade por sua organização, a celebração preserva saberes, rituais e formas de devoção que mantêm viva uma herança cultural compartilhada. Sua realização itinerante, acompanhando o lugar onde reside a família festeira, revela uma forma singular de construir e renovar o território da festa.
Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.
