FESTA DE SÃO BENEDITO – FAMÍLIA DO SR. DAMIÃO DE ALMEIDA


A festa de S. Benedito, realizada tradicionalmente no mês de setembro,  constitui um lugar de referência simbólica para os devotos do santo na cidade de Rosário Oeste. A celebração representa a continuidade de uma devoção mantida pela família do Sr. Damião. de Almeida, reunindo, há mais de 70 anos, familiares, promesseiros e devotos do santo. A celebração é realizada em apenas um dia, mas de forma intensa e marcada por profunda demonstração de devoção, mantendo tradições dos tempos em que a festa era realizada no meio rural, como o levantamento do mastro, a ladainha.

Leia mais

A celebração em homenagem a S. Benedito, realizada no mês de setembro na residência do Sr. Damião de Almeida e de sua esposa Ivanice P.de Almeida, constitui um lugar de referência simbólica para os devotos do santo. A centralidade desse lugar, entretanto, é resultado de um percurso marcado pelo deslocamento da família, no ano de 1972, do Sítio Bocaina, localizado no Distrito de Arruda, para a cidade de Rosário Oeste. 

D. Ivanilce e o Sr. Damião relatam, com saudade, o tempo em que viviam no sítio da Bocaina. Naquele período, a celebração ocorria em um único dia: iniciava-se com o jantar, seguido da reza cantada em louvor a São Benedito e da rodada de cururu. Esta se estendia noite adentro, considerando que muitos devotos moravam em locais distantes e não dispunham de transporte para o deslocamento. Pela manhã, servia-se aos participantes o chá, acompanhado de bolo de arroz assado em forno de barro, preparado na folha de bananeira e/ou em lata de sardinha, como relata D. Ivanilce.

A reza, que antes era realizada no espaço doméstico do sítio, reunindo familiares, vizinhos e outros participantes da comunidade, atualiza as formas de vivência da devoção e de organização do encontro coletivo no contexto urbano. No ano de 1976, a celebração ao santo negro passa a ser realizada em um espaço construído no quintal da residência da família. Nesse local, além dos rituais de levantamento do mastro, do cururu, da reza da ladainha e da partilha gratuita de alimentos, também se realizava o baile. 

Com o envelhecimento de seus realizadores,  o baile deixou de ser realizado e, a celebração passou por transformações, sem, no entanto, perder sua essência nem a devoção ao santo. Sua realização ocorre tradicionalmente em um único dia, estruturado em torno de rituais que marcam a celebração, como o levantamento do mastro, a reza cantada e a comensalidade gratuita que reúne os participantes em torno da partilha do alimento.

Um dia antes do festejo, a paisagem cotidiana do quintal começa a se transformar com a colocação de bandeirolas coloridas, dispostas entre as árvores e no teto do salão, sinalizando simbolicamente o início do tempo de celebração. A parede do salão é cuidadosamente preparada e decorada com um painel contendo elementos simbólicos da cultura regional, entre eles a viola de cocho, cuja representação reafirma a conexão entre a fé, o território e as práticas culturais que marcam as expressões do catolicismo popular. A cozinha recebe reforço de familiares e devotos no preparo de alimentos que serão partilhados após o ato de louvação ao santo.

No dia da festa, a imagem de São Benedito deixa o silêncio do nicho situado no interior da residência e torna-se protagonista da celebração, compondo o altar (mesa), cuidadosamente decorado com flores, velas, estandarte e a coroa que irá compor o mastro do santo. O espaço adquire, nesse momento, uma nova dinâmica, convertendo-se em território simbólico, no qual a devoção, a prática cultural e a sociabilidade reafirmam os vínculos comunitários em torno da devoção a São Benedito.

Os cururueiros chegam de várias localidades para celebrar o santo, afinam as violas e iniciam o ritual de louvação com versos e toadas que remetem à vida do santo. Entre goles de licor de jatobá, cuidadosamente preparados pelo anfitrião da casa, conduzem o ritual até o momento do levantamento do mastro. A celebração é realizada em apenas um dia, mas de forma intensa e marcada por profunda demonstração de devoção, mantendo tradições dos tempos em que a festa era realizada no meio rural, como o levantamento do mastro, a ladainha. Ao final, após os participantes terem rezado, é oferecido gratuitamente um, composto pelos sabores típicos da festa de santo e bebidas tradicionais, à base da cachaça, que carregam os saberes transmitidos por gerações. O espaço festivo retoma o cotidiano doméstico e só se altera uma semana depois, com a descida do mastro, quando os últimos vestígios da celebração se recolhem e a casa, pouco a pouco, volta ao seu ritmo habitual, guardando a promessa da sua continuidade no ano seguinte.

Rolar para cima