A festa de Nossa Senhora Aparecida, realizada tradicionalmente no mês de setembro, integra o calendário das festas populares religiosas do município de Rosário Oeste. A celebração representa a continuidade de uma prática votiva mantida pela família de Dona Julieta B. de Almeida, reunindo, há mais de cem anos, familiares, promesseiros e devotos da santa. Sua programação preserva a estrutura ritual característica das festividades populares da região, incluindo o levantamento do mastro, a participação dos cururueiros, a reza cantada, a comensalidade gratuita, o leilão e o baile, reafirmando vínculos de fé, sociabilidade e memória coletiva.


































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Na Baixada Cuiabana, as festas religiosas devocionais dedicadas à Nossa Senhora Aparecida constituem importantes pilares do catolicismo popular e configuram um dos mais expressivos símbolos culturais da região, ao articular fé, memória e sociabilidade comunitária. Nesse contexto, a festa de Nossa Senhora Aparecida, realizada tradicionalmente no mês de setembro pela família de Dona Julieta B. Almeida, representa a continuidade de uma prática votiva iniciada por seu sogro, o Sr. Marcelino Ferreira, que faleceu aos 105 anos. Em razão da idade avançada, o Sr. Marcelino transferiu a responsabilidade pela continuidade do rito a seu filho, Eusébio Ferreira de Almeida, e sua esposa, D. Julieta B. de Almeida, residentes no sítio Chupador, localizado em uma região popularmente conhecida como “Vão da Serra”, na zona rural de Rosário Oeste.
Segundo relatos da família, a realização da festa constituía um marco na vida religiosa e social da localidade, configurando-se como um importante momento de manifestação de fé e devoção à N. S. Aparecida. A celebração reunia, junto à família organizadora, moradores das áreas circunvizinhas da comunidade.
Naquele período, a localidade não dispunha de energia elétrica, o abastecimento de água era realizado por meio de poços, e as vias de acesso eram precárias e distantes da sede do município. A vida social era marcada por uma dinâmica fortemente vinculada ao trabalho rural e ao cotidiano do espaço doméstico, de modo que os momentos de convivência coletiva e de lazer eram relativamente raros e, em grande medida, concentravam-se nas ocasiões das festas de santo. Nesse contexto, a festa assumia um papel central na vida cultural e social da comunidade, rompendo temporariamente com o cotidiano ordinário e constituindo um momento privilegiado de encontro, sociabilidade e reafirmação da devoção religiosa.
Nesse cenário, a realização da festa exigia criatividade e constante adaptação às condições locais. Conforme relatos de D. Julieta e sua filha, Edilene Almeida, para conservar as bebidas utilizavam gelo envolto em casca de arroz, estratégia que permitia manter a refrigeração por mais tempo diante da ausência de energia elétrica. Já o deslocamento dos participantes dependia da contratação de carros para transportar pessoas provenientes de outras localidades, objetivando garantir a participação de parentes, vizinhos e devotos na celebração.
Além da presença dos cururueiros, responsáveis por conduzir o ritual de levantamento do mastro e entoar as louvações que marcavam o ritmo devocional da celebração, a festa contava também com a participação de músicos contratados, que assumiam a animação da noite de baile, compondo uma cena em que devoção, sociabilidade e celebração se entrelaçavam no espaço doméstico.
Naquele período, os preparativos da festa começavam dias antes da celebração, quando os moradores se reuniam para produzir os biscoitos que seriam distribuídos no tradicional “chá com bolo”. O modo de preparo difere das práticas atuais, pois os ingredientes utilizados, como o fubá de milho e o polvilho de mandioca, eram produzidos pelos próprios membros da comunidade. Segundo relata D. Julieta e sua filha, tratava-se de um momento coletivo que mobilizava diferentes gerações: os jovens e os homens se encarregavam de socar os grãos nos pilões, enquanto as mulheres mais idosas, detentoras do saber-fazer da iguaria, conduziam a preparação da receita.
Recordado com nostalgia, elas narram que essa prática constituía um momento festivo e alegre, marcado por ritmos sincronizados produzidos pelos golpes dos pilões e pela participação compartilhada das pessoas envolvidas, constituindo-se em espaço de sociabilidade e práticas tradicionais herdadas de seus antepassados. Para as crianças, essa prática, além de constituir um momento de aprendizagem cultural, se convertia também em um lugar de descontração e convivência lúdica, no qual utilizavam o pó depositado no fundo dos pilões para pintar os próprios corpos e interagir com as demais crianças. Com a transferência da festa para a cidade, essa prática foi gradualmente desaparecendo: os pilões deixaram de ser utilizados e, juntamente com eles, a receita tradicional baseada no fubá de milho passou a ser utilizada apenas a fécula de mandioca industrializada, evidenciando transformações nos modos de fazer associados à festa.
A mudança da família para a sede municipal, na década de 1970, não significou a interrupção da prática festiva devocional, mas sua (re)territorialização em um novo contexto socioespacial. Por razões logísticas, a festa é realizada no espaço alugado denominado “Mangueiral”, situado na área urbana de Rosário Oeste, onde continuam a ecoar as memórias, a devoção e a fé que atravessam gerações.
Mas a festa se inicia antes, no espaço doméstico de D. Julieta, onde as tarefas de organização são distribuídas entre os filhos e demais familiares, incluindo o preparo dos doces, licores e biscoitos que serão oferecidos e compartilhados durante a celebração. No dia destinado à produção dos biscoitos, o cotidiano doméstico se transforma, temporariamente, em um lugar de trabalho compartilhado, sociabilidade e transmissão de saberes culinários associados à tradição festiva.
A programação da festa preserva a estrutura ritual característica das celebrações tradicionais da região. Entre os momentos centrais destaca-se o rito do levantamento do mastro, conduzido pelos cururueiros, seguido pela partilha de alimentos entre os devotos, prática que reafirma valores de reciprocidade e convivência comunitária. No sábado à noite realiza-se a reza cantada em louvor a Nossa Senhora Aparecida, momento em que a devoção coletiva se expressa por meio de cantos e orações. Em seguida, ocorre o baile, concomitante ao leilão de prendas, composto por alimentos preparados pela própria família organizadora, como linguiça, bolinhos de carne empanada, pernil frito e licor de leite, cujos sabores evocam a memória culinária associada à festa.
A celebração se encerra no domingo com a partilha do almoço comunitário e a realização da tradicional matinê, momentos que prolongam a convivência festiva e reafirmam o papel da festa como lugar de encontro, continuidade da tradição e fortalecimento dos vínculos sociais entre parentes, vizinhos e devotos, com a escolha dos novos festeiros para a festa seguinte.
Celebrar Nossa Senhora Aparecida representa, para a família, muito mais do que a continuidade de uma tradição religiosa: constitui um gesto de fidelidade à memória e à devoção cultivada pelo pai ao longo de toda a sua vida. Segundo os relatos familiares, pouco antes de seu falecimento, ocorrido justamente no dia da festa dedicada à santa, ele reuniu os filhos e lhes pediu que mantivesse viva a celebração que, durante tantos anos, organizara com fé e dedicação. Assim, a cada ano, ao preparar a festa, erguer o mastro e reunir parentes, vizinhos, promesseiros e devotos, a família reafirma não apenas sua fé, mas também o compromisso afetivo e o cuidado de preservar um legado transmitido entre gerações, no qual devoção, memória e pertencimento se entrelaçam no tempo e no espaço da celebração.
