FESTA DE N. S. PIEDADE E DE SANTO ANTÔNIO – BAIRRO TABOÃO

Popularmente conhecida como “Festa do Taboão”, a celebração em devoção a Nossa Senhora da Piedade e a Santo Antônio, realizada no mês de agosto, configura-se como uma das manifestações religiosas populares mais tradicionais de Rosário Oeste. Enraizada na memória coletiva do bairro, a festividade articula fé, sociabilidade e pertencimento, consolidando-se como referência simbólica no calendário das “festas de santos” rosarienses. A festa de Nossa Senhora da Piedade configura-se como continuidade de uma prática votiva originalmente vinculada à Senhora Emília Maria Santana, no distrito de Coxipó do Ouro, subdivisão administrativa do município de Cuiabá.

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No mês de agosto de 1957, a imagem da santa foi entregue a seus filhos, acompanhada do pedido de manter a permanência e a realização anual da celebração. Esse gesto não representou apenas a transmissão de um objeto sacro, mas configurou a delegação de uma responsabilidade simbólica e religiosa, por meio da qual a devoção foi preservada e territorialmente (re)inscrita, durante muitos anos, na Fazenda Cassange, localizada no Distrito de Bauxi, subdivisão administrativa do município de Rosário Oeste.

Nesse período, sua filha, D. Margarida Maria Ferreira, juntamente com seu irmão, Antônio Ferreira, já promovia, na Fazenda Cassange, a festa em devoção a Santo Antônio, que, no catolicismo popular é amplamente reconhecido como “casamenteiro” e como protetor da família. A realização desta celebração articulou-se ao compromisso assumido e a responsabilidade de continuidade da devoção à N.S. da Piedade, sendo festejada anualmente no mês de agosto e Santo Antônio no mês de junho. Essa dinâmica de articulação devocional a diferentes santos constitui uma prática característica do catolicismo popular, configurando-se assim, em uma rede complementar de proteção simbólica, na medida que cada santo é reconhecido pelos fiéis como portador de atribuições específicas de intercessão e amparo espiritual.

Das festas realizadas na Fazenda Cassange, D. Gonçalina, que tinha cerca de nove anos quando se mudou para “a cidade”, guarda poucas lembranças. Os fragmentos que permanecem em sua memória evocam, sobretudo, a forte devoção e fé que orientava a realização da festa. Entre essas recordações, destacam-se os momentos coletivos em que os participantes se reuniam para socar o milho, utilizado no preparo dos biscoitos, bem como os bailes que animam a celebração, conduzidos pela Banda musical do Sr. Isaque (in memoriam), reconhecido músico da cidade. 

A mudança de D. Margarida da Fazenda Cassange, no ano de 1975, para o então Bairro Taboão, atualmente denominado N.S. da Piedade, situado na periferia urbana de Rosário Oeste, não significou a interrupção da prática festiva devocional, mas sua (re)territorialização em um novo contexto socioespacial. Ao migrar para a cidade, a família não carrega nos seus corpos apenas sonhos e expectativas de uma vida melhor, mas também modos de viver, de ser, de habitar e de se relacionar com o divino: seu santo de devoção, seu nicho doméstico e sua festa. Assim, reconfigurando a espacialidade do sagrado, antes ancorada no espaço festivo doméstico-rural, passou a acontecer no doméstico-rururbano. 

 Entretanto, a realidade do bairro, no que se refere à infraestrutura urbana e moradia, pouco se distinguia do contexto rural anteriormente vivido: havia precariedade nas vias de acesso, ausência de arruamento regular, inexistência de luz elétrica e abastecimento de água encanada. As habitações eram construídas em pau a pique, e a própria capela de Nossa Senhora da Piedade, inicialmente erguida em 1958 com cobertura de palha, foi posteriormente reconstruída, em regime de mutirão, também nesse padrão construtivo.(Celestino et al, 2025)

Em meio à precariedade urbana, a territorialidade que se configurou no bairro, marcada pela proximidade espacial e pela convivência cotidiana, favoreceu a formação e a (re)produção de redes de solidariedade e cooperação. Essas relações de vizinhança formada pelos familiares de D. Margarida e amigos, criaram as condições necessárias para que a prática festiva continuasse a (re)existir no espaço doméstico-rururbano, contando com a participação ativa da comunidade local. Nesse sentido, o bairro não se reduz a um simples aglomerado populacional ou a uma unidade administrativa, mas configura-se como lugar vivido, tecido pelas experiências cotidianas, pelos vínculos afetivos e sentimento de pertencimento e devoção.  

Com a morte de seu esposo e em razão da idade avançada, Dona Margarida transferiu as imagens sacras à sua filha, Gonçalina da Silva, e ao seu esposo, José Albano da Silva, incumbindo-os da responsabilidade de dar continuidade à festividade, renovando o compromisso devocional e assegurando a permanência da tradição familiar.

A ampliação da escala da festa implicou um processo de comunitarização, expresso tanto nas interações sociais inicialmente estabelecidas entre a família promesseira e os moradores do bairro quanto na participação de irmandades e devotos, que passam a assumir diferentes tarefas na realização da celebração. Tal processo evidencia a transição de uma prática de caráter familiar para uma manifestação coletiva, ancorada em redes de sociabilidade e cooperação. Nesse contexto, o significado de família amplia-se para além dos laços consanguíneos, passando a adquirir o sentido de um parentesco simbólico, como os próprios colaboradores da festa se autodenominam: “Família Taboão”. Essa redefinição revela a constituição de uma comunidade de pertencimento, na qual a fé e a devoção aos santos festejados articulam-se à construção de vínculos sociais, identitários e territoriais, configurando o que pode ser compreendido como uma territorialidade simbólica, sustentada por práticas culturais compartilhadas e pela memória coletiva.

A participação ativa da comunidade no processo de organização da festa, iniciada meses antes de sua realização, reforça essa dimensão coletiva e territorializada. As atividades envolvem desde a coleta de donativos até a limpeza do espaço que receberá os visitantes, além do preparo do licor e dos materiais utilizados na decoração do ambiente, evidenciando uma divisão social do trabalho orientada por valores de solidariedade e reciprocidade. Uma experiência singular observada no cotidiano desse dispositivo cultural, é que após a realização do biscoito para festa, a participante pode levar seu próprio ingrediente para a produção, garantindo, em contrapartida, uma parcela do produto aos participantes que colaboraram no feitio, ou seja, do qual o trabalho não remunerado é recompensado simbolicamente pelo reconhecimento social em participar do ato de fazer a iguaria. 

 A programação festiva tem início com a alvorada e a queima de fogos, que anunciam o dia de celebração dos santos de devoção da comunidade, marcando simbolicamente o tempo festivo. Falar sobre a bandeira esmoleira.

Mantém-se, nesse contexto, a tradição da distribuição gratuita de refeições, prática que reforça os laços comunitários e a hospitalidade local. A celebração inclui, ainda, o ritual do levantamento do mastro, a ladainha e, por fim, o matinê realizado no domingo, compondo um conjunto de práticas que articulam religiosidade, cultura e sociabilidade, ao mesmo tempo em que reafirmam a identidade territorial e a continuidade da tradição.

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