As cozinhas

As cozinhas das festas de santo em Rosário Oeste são espaços de memória, partilha e construção coletiva. Mais do que locais de preparo dos alimentos, elas reúnem saberes tradicionais, trabalho comunitário, fé e convivência. Entre fogões a lenha, mutirões, receitas transmitidas entre gerações e refeições compartilhadas, as cozinhas tornam-se territórios simbólicos onde cultura, devoção e pertencimento se encontram.

As cozinhas são lugares centrais nas casas, não só porque é ali onde são produzidas as comidas que são essenciais para a existência, mas também porque são lugares de partilha e comunhão. Elas são retratos concretos das experiências culturais, onde os utensílios, à disposição dos objetos, os ingredientes e os saberes contam muito da história das famílias e comunidades.

De acordo com Ferreira (2020), a espacialidade na alimentação pode se desdobrar no pensar da própria cozinha como um lugar, já que ela concentra não apenas significativa parcela das atividades domésticas cotidianas, como também muitas das memórias afetivas acerca da casa. Nossas relações emocionais também são marcadas pelo espaço da cozinha: espaço do encontro, da reunião, dos aromas e sabores. 

Portanto, a cozinha é um espaço de relações sociais e “Durante o preparo e o momento das refeições, a cozinha pode ser palco do estreitar de laços ou até mesmo do estopim de desavenças, entre as pessoas que ali estão” (Ferreira, 2020, p. 202).

Percorrer as cozinhas das comunidades durante a preparação da festa é testemunhar a conversão dos alimentos em sabores partilhados. Uma semana antes da celebração, inicia-se o mutirão: limpeza do espaço, coleta e corte da lenha, organização dos utensílios, preparo de doces, licores e biscoitos. Homens e mulheres assumem funções complementares, numa dinâmica que expressa cooperação e não separação rígida. A comida ao final do trabalho funciona como retribuição simbólica e reafirma o pacto coletivo.

Na visão de Palhares (2014, p. 27) “Dor, sorriso, partilha, amizade, solidão, desejo, são apenas alguns sentimentos vividos em volta do fogão a lenha”.

Esse mutirão, ou motyrõ — “juntar as mãos para fazer” — revela uma prática socioespacial historicamente construída, como já apontava Candido (2001) ao tratar do cotidiano camponês. Na festa, o trabalho coletivo integra o universo simbólico da fé. Cozinhar é também cumprir a promessa, agradecer a graça alcançada e renovar a aliança com o santo.

A cozinha assume centralidade no dia da festa. O fogo dos fogões moldados no chão, herdeiros dos antigos tacurus indígenas, desperta cedo. Panelas de alumínio substituem as antigas panelas de barro, mas os saberes permanecem. O “ponto” não se mede por relógio ou termômetro: “é no olho”, “é quando o cheiro muda”.

.O trabalho coletivo, o calor do fogo, o esforço físico, a fumaça que arde nos olhos são compreendidos como sacrifício que renova a aliança com o divino (Claval, 2001). Antes ou depois de servir, muitas cozinheiras reúnem-se para agradecer de mãos dadas. A cozinha transforma-se em território simbólico de fé, onde corpo e território se fundem em “territórios-corpos” (Haesbaert, 2020), rompendo dicotomias entre sagrado e profano.

A cozinha é espaço experiencial de sensações e o sabor se revela no ato de comer. Nesse ato, paisagem e sabor se misturam e se tornam uma só essência impregnada de gosto e aroma. Nesta arte de transformação dos alimentos, são construídos saberes que levam a desvendar a superfície terrestre enquanto espaço e matéria – espaço geográfico (Gratão, 2014).

O momento de servir é um dos mais esperados. Filas se formam, panelas são transportadas coletivamente, idosos e crianças recebem prioridade, cururueiros são atendidos com deferência. Alguns levam vasilhames para casa, prática aceita como costume comunitário. Nunca falta comida.

Após a partilha, o espaço reorganiza-se em microterritórios de convivência. Grupos se formam conforme laços familiares e afetivos. O ambiente que acolheu a reza cantada e o cururu passa a abrigar o rasqueado, o lambadão e a música sertaneja. O mesmo espaço articula devoção, alimentação e dança, revelando o hibridismo entre tradição camponesa e elementos contemporâneos (Brandão, s/d).

Celebrar, comer, rezar e dançar coexistem, sendo que a festa de santo, portanto, não é apenas evento religioso, mas momento privilegiado de organização da vida social, onde permanências e rupturas se entrelaçam.

Mesmo diante das transformações urbanas, da expansão do agronegócio e das pressões da modernidade, os saberes e sabores persistem. Eles reafirmam a identidade territorial rosariense e demonstram que, nas festas de santo, a comida é memória viva, cuidado coletivo e linguagem do pertencimento.

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