A Festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira de Rosário Oeste, é celebrada anualmente no mês de outubro, tendo o dia 7 como data principal. A devoção à santa está profundamente ligada à história do município, remontando à antiga capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário, construída em 1751, e à formação do próprio núcleo urbano.
Atualmente, a celebração reúne práticas religiosas e momentos de convivência comunitária. O ciclo festivo inclui novenas, esmolação da bandeira, missas, procissões, levantamento do mastro, reza cantada, leilões, bingo, apresentações culturais e partilha de comidas típicas.
Entre os momentos centrais está o levantamento do mastro, acompanhado pelo cururu. O cortejo reúne sacerdote, rei, rainha, alferes, capitão de mastro e devotos, que conduzem a imagem e a bandeira de Nossa Senhora do Rosário até o local do ritual.
A esmolação da bandeira também ocupa lugar importante na celebração. Ao percorrer bairros e comunidades, a bandeira leva simbolicamente a presença da padroeira às casas, onde os devotos recebem a bênção e pedem proteção para suas famílias.





















Rosário Oeste, carrega em suas ruas, casas e festas uma profunda herança de fé, devoção e memória. Uma história marcada pela presença da religiosidade católica, construída ao longo de séculos no cotidiano do povo Rosariense.
A territorialidade religiosa católica em Rosário Oeste teve sua gênese no ano de 1751, quando Inácio Manuel Tourinho e sua esposa, D. Maria Francisca Tourinho, edificaram uma capela dedicada a N. Senhora do Rosário, na sesmaria denominada de Monjolo. A imagem, trazida do Rio de Janeiro, pelo rio Cuiabá, permaneceu nessa capela até o falecimento de Inácio Manuel Tourinho e sua esposa, D. Maria Francisca Tourinho. Com a decadência do povoado Monjolo, a imagem da santa foi transferida para o povoado vizinho em formação, denominado Distrito de Rio Acima, que tinha como titular e Orago Nossa Senhora do Rosário. A imagem da Santa permaneceu no povoado (Ferreira, 1997)1, consolidando-se assim, a devoção em outro espaço, sem romper com a sua centralidade simbólica.
Aos poucos o povoado, progrediu e, já participando do comércio abastecedor da Vila Bom Jesus de Cuiabá adquiriu, no ano de 1833, o status administrativo de Freguesia, sob a denominação de N. S. do Rosário do Rio Acima (Ferreira, 1987), passando também a contar com organização religiosa própria e com atuação do pároco (Knob, 1988)2, consolidando assim, a centralidade, religiosa, administrativa, social e cultural do povoado.
Em 1861, a Freguesia adquiriu o status de Villa de Nossa Senhora do Rosário (Ferreira, 1997). A manutenção do hagiotopônimo atribuído ao povoado, além de expressar a territorialidade católica, evidencia o papel histórico da Igreja como agente produtor e organizador do espaço urbano em formação, bem como sua contribuição na constituição do patrimônio religioso local. Não há registros que permitam compreender, de forma detalhada, como se desenvolviam as práticas de devoção pública relacionadas à padroeira, Nossa Senhora do Rosário, nesse período.
Entre 1903 e 1938, a ausência de pároco responsável para realizar atividades de evangelização favoreceu a reconfiguração das espacialidades da religiosidade católica, que passou a se desenvolver predominantemente no âmbito doméstico, mediante a realização de ritos de devoção privados às imagens de santos e orações coletivas, assim como, pela realização de festas votivas familiares (Knob, 1988; Steinen 19403), trazendo à vivência religiosa um caráter popular, social e cultural.
De acordo com Knob (1988), com a chegada dos franciscanos em 1938, as festividades religiosas passaram a ser celebradas de acordo com os cânones da Igreja, incluindo missa solene, procissões e rezas, enquanto a quermesse era realizada em momento posterior. O autor registra ainda que, além das celebrações litúrgicas realizadas nos meses de maio, junho e outubro, destacando-se a festa da padroeira, celebrada no dia 06 e 07 de outubro, eram festejados com solenidade os santos de devoção popular, entre eles Sebastião, Santo Antônio, S. Francisco e Santa Cruz.
Na contemporaneidade, a celebração da festa da padroeira Nossa Senhora do Rosário segue o calendário litúrgico que estabelece sua comemoração no dia 7 de outubro, sendo organizada de acordo com os princípios e ritos prescritos pela Igreja Católica. Sua programação articula uma dimensão religiosa, expressa nas novenas, missas e procissões, e uma dimensão social, materializada nos leilões, bingos, apresentações culturais e na comercialização de comidas típicas regionais, contribuindo para fortalecer a devoção à padroeira e os laços de sociabilidade entre os participantes da festa.
O tempo festivo é marcado pela realização da novena e pelo ciclo de esmolação, durante o qual representantes das comunidades eclesiais vinculadas à Igreja Matriz percorrem bairros e localidades portando a bandeira da santa e arrecadando donativos destinados à realização da festa. A chegada da bandeira à residência constitui um momento de intensa significação para os devotos, tanto para aqueles que a conduzem quanto para os que a recebem, pois representa a presença simbólica da santa no espaço doméstico, de quem se pede benção e proteção para a casa e a família.
Assim, mais do que uma prática de arrecadação, a esmolação constitui um ritual do qual a presença simbólica da padroeira ultrapassa as fronteiras do templo (sagrado) e alcança o espaço e cotidiano doméstico e/ou comunitário. Uma prática que possibilita reafirmar vínculos de fé, reciprocidade e pertencimento comunitário, ao mesmo tempo em que amplia e atualiza as territorialidades religiosas para além do espaço eclesiástico, incorporando o cotidiano das famílias e fortalecendo a relação entre devoção, território e identidade4.
No ano de 2025, a programação a festa da padroeira de Rosário Oeste tem início no dia 27 de setembro, com a celebração da missa solene na Igreja Matriz, o levantamento do mastro na Praça Manoel Loureiro, em frente à Igreja Matriz, e a reza cantada no Salão Paroquial. Após o término da missa solene, o sacerdote realiza a bênção da coroa e da bandeira (quadro) de Nossa Senhora do Rosário que serão fixados no mastro. Em seguida, forma-se o cortejo, composto pelo sacerdote, capitão de mastro, pelo rei, pela rainha e demais devotos, que segue em direção ao salão paroquial, onde os cururueiros conduzirão o ritual de levantamento do mastro.
O ritual tem início com a saudação ao altar realizada pelos cururueiros. Em seguida, são entoadas carreiras e trovas até o momento de subir o mastro. Chegada essa ocasião, sob o comando dos cururueiros, forma-se a procissão. Nesse cortejo, cada participante desempenha uma função: o rei e a rainha conduzem a imagem da santa, o alferes carrega a bandeira, o capitão de mastro guarda a coroa e os demais devotos seguem portando velas acesas. Ao som do cururu, a procissão dirige-se ao local de levantamento do mastro, ritual que simboliza a abertura oficial da festa e reafirma os vínculos entre devoção, memória e pertencimento comunitário.
Concluído o levantamento do mastro, os cururueiros, sempre cantando, conduzem a procissão de retorno ao salão paroquial, onde os festeiros colocam as imagens e insígnias em seus respectivos lugares no altar e as velas são apagadas, marcando o encerramento do ritual.Em seguida, inicia-se a tradicional reza cantada em louvor à N.S.do Rosário, realizada diante do altar montado no salão de festas da paróquia. Em coro a comunidade renova sua devoção por meio de preces e cânticos em agradecimentos à padroeira.Ao final, realiza-se a partilha do jantar, preparado com pratos típicos da culinária regional e acompanhado do tradicional licor de leite, bebida típica das festas de santo. Assim, entre rezas, cantos e partilhas, encerra-se mais um ciclo da Festa de Nossa Senhora do Rosário, renovando uma tradição que, ano após ano, reafirma a memória, a identidade e a continuidade da devoção na comunidade.
Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI- : Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.
Notas
- Ferreira, J.C.V. Mato Grosso e seus Municípios, Cuiabá: Secretaria do Estado da Cultura, 1997. ↩
- KNOB, Frei Pedro. Paróquia N.S. Rosário – Rosário Oeste (1938 -1983) In: A missão Franciscana do Mato Grosso. São Paulo: Loyola, 1988. ↩
- O relato de viagem no final do século XIX do etnólogo alemão Karl von den Steinen, denominado “Entre os aborígenes no Brasil Central”, elucida a territorialidade da religiosidade popular portuguesa no espaço privado da “Baixada Cuiabana” ↩
- As práticas culturais do catolicismo popular vão ao encontro das orientações contidas nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (1995-1998), que recomendam uma maior valorização da religiosidade popular e de seu universo simbólico. Conforme o documento, é necessário “[...] trabalhar mais com as massas e não se fechar em pequenos grupos; acolher melhor a religiosidade popular e respeitar mais seu universo simbólico [...]” (CNBB, 1995, p. 51). Nessa mesma perspectiva, a CNBB reconhece que “a evangelização exige a enculturação da fé e o respeito pelos valores próprios de cada grupo humano”, considerando a religiosidade popular um caminho privilegiado para a ação evangelizadora (CNBB, 1995). ↩
