Festa do Divino Pai Eterno (Comunidade do Pai Eterno)

Realizada em outubro, na comunidade rural do Pai Eterno, às margens do rio Cuiabá, a festa reúne moradores, familiares, devotos e visitantes em torno da devoção à Santíssima Trindade. Sua história está ligada à narrativa do aparecimento da imagem do Divino Pai Eterno nas águas do rio, que permanece como importante referência na memória da comunidade.

A preparação da festa mobiliza moradores e familiares em mutirões, envolvendo a organização dos espaços, a produção de alimentos e a manutenção das estruturas comunitárias. Desde maio, a bandeira esmoleira percorre comunidades, bairros e outras festas religiosas, arrecadando doações e levando bênçãos e proteção às famílias visitadas.

Em outubro, a celebração reúne missa, levantamento do mastro, reza cantada, cavalgada, partilha gratuita de alimentos, leilão e baile. Entre os saberes preservados está a produção artesanal da tradicional broa de milho, preparada com milho e fécula de mandioca, cuja receita é mantida por familiares da comunidade do Nicolau.

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A festa do Divino Pai Eterno, realizada na Comunidade rural homônima, situada à margem direita do rio Cuiabá, integra o conjunto das manifestações festivas religiosas tradicionais de Rosário Oeste. A denominação do lugar e a devoção ao Divino Pai Eterno (Santíssima Trindade ) vinculam-se à narrativa do aparecimento de sua imagem nas águas do referido rio. Segundo relatos da comunidade, no local onde a imagem do Divino Pai Eterno foi encontrada, às margens do rio Cuiabá, foi construída uma pequena capela destinada à sua guarda e veneração. Posteriormente, essa edificação foi destruída pelas grandes cheias do rio, lembradas pelos moradores como o "dilúvio", expressão utilizada para designar as inundações que marcaram a história da comunidade.

De acordo com a memória coletiva da comunidade, após esse episódio, uma nova capela de barro e pau a pique foi edificada para abrigar a imagem da Santíssima Trindade. Entretanto, segundo a tradição oral, na manhã seguinte a imagem já não se encontrava em seu interior. Esse acontecimento passou a integrar as narrativas de origem da devoção local, sendo interpretado pelos moradores como uma manifestação da vontade do Divino Pai Eterno em relação ao lugar de sua permanência.

A capela de barro e pau a pique foi edificada em uma área de aproximadamente 600 hectares da antiga Sesmaria Raizama, doada por Virgínio Ferreira de Almeida, conhecido como Virge, ao Divino Pai Eterno, padroeiro da comunidade. Mais do que viabilizar a construção de um templo, a doação das terras contribuiu para a consolidação de um território de devoção, no qual a capela passou a materializar a presença do sagrado e a organizar, simbolicamente, a vida religiosa e socioeconômica da comunidade.

Segundo relatos de antigos moradores, além do direito de construir e manter a capela nas terras doadas ao santo, as famílias que ali residiam podiam cultivar a terra para o próprio sustento, mas não tinham autorização para vendê-la. A concessão do direito de moradia e de uso nas terras era decidida consensualmente pelos moradores mais antigos na comunidade, conforme as normas tradicionalmente estabelecidas entre eles.

A construção da capela consolidou um espaço permanente para a realização das práticas religiosas já desenvolvidas pela comunidade, tornando-se o principal lugar de referência da devoção ao Divino Pai Eterno. Com a chegada dos frades franciscanos a Rosário Oeste, em 1938, a comunidade passou a receber assistência pastoral mais sistemática da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, integrando-se gradativamente à organização religiosa da Igreja. A partir de então, além das rezas e da festa tradicional, a capela passou a acolher, conforme a disponibilidade do pároco, a celebração de missas, batizados, casamentos e demais atos litúrgicos.

Realizada no mês de outubro, a Festa em louvor ao Divino Pai Eterno constitui um importante momento de encontro, devoção e convivência comunitária. Sua organização mobiliza moradores, familiares e devotos em torno de um amplo conjunto de atividades, nas quais trabalho, fé e solidariedade se articulam na preparação da celebração. Sustentada por relações de parentesco, vizinhança e reciprocidade, a festa fortalece os vínculos comunitários e reafirma o compromisso coletivo com a continuidade da tradição. Essa participação manifesta-se tanto na manutenção da capela e das estruturas que acolhem a celebração quanto na realização dos ritos religiosos, da culinária e das atividades festivas, revelando a estreita relação entre devoção, trabalho e vida comunitária.

Segundo relatos dos antigos moradores e participantes do evento no passado, a ausência de infraestrutura não impedia a realização da festa. A água era buscada no rio, a lenha coletada nas proximidades e o barracão erguido provisoriamente com materiais disponíveis na própria comunidade. Ao longo dos anos, o esforço coletivo dos festeiros e “irmandades1” possibilitou a construção de um salão comunitário, da cozinha, da rede de energia elétrica e do poço artesiano.

Os preparativos para a celebração começam com o ciclo de esmolação, no mês de maio, período em que os festeiros percorrem com a bandeira pelas comunidades, bairros e outras festividades religiosas levando a bandeira, com o objetivo de arrecadar doações para realização da festa. A chegada da bandeira nos lugares de visitação constitui um momento de intensa significação, tanto para aqueles que conduzem quanto para os que recebem, pois representa a presença simbólica da Santíssima Trindade, a quem se solicitam bênçãos e proteção para a casa e a família.

A programação da festa é marcada por diferentes temporalidades e formas de sociabilidade que mobilizam mãos, corpos e saberes na preparação da celebração. Cerca de uma semana antes do início dos festejos, começam os preparativos para a organização do espaço. São realizados mutirões destinados à limpeza da cozinha e dos utensílios, à coleta da lenha, ao seu corte e à organização dos locais de preparo dos alimentos. Embora as tarefas que exigem maior esforço físico sejam, em geral, desempenhadas pelos homens, sua participação estende-se também às atividades da cozinha, como a produção de linguiça, o corte das carnes e a fritura dos alimentos. Essa divisão do trabalho diferencia-se de outras festas tradicionais da região, nas quais as mulheres assumem, predominantemente, a condução das atividades culinárias.

Há também um tempo específico, anterior ao dia da celebração, dedicado à produção dos alimentos que serão compartilhados durante a festa, como o licor e doce de leite ou de mamão verde servidos como sobremesa, e os biscoitos compartilhados no tradicional Tcha co’ bolo.

A preparação desses alimentos mobiliza familiares, vizinhos e amigos dos festeiros, ampliando a rede de colaboração que sustenta a realização da celebração. No caso dos biscoitos, conhecidos pela comunidade como "broa de milho", sua produção ocorreu, em 2025, na comunidade do Nicolau, onde residem os parentes dos festeiros responsáveis por preservar a receita tradicional, elaborada à base de milho e fécula de mandioca. O preparo mantém um modo de fazer artesanal que envolve todas as etapas da produção, desde a obtenção do fubá por meio da socata, prática coletiva em que o milho é socado em mutirão, até a confecção dos biscoitos.

O ponto culminante da festa ocorre no mês de outubro, quando se concentram os principais rituais e práticas que articulam as dimensões religiosa e sociocultural da celebração. Entre eles destacam-se a missa na capela, o levantamento do mastro, a reza cantada, a partilha gratuita dos alimentos, o leilão de prendas e o baile de encerramento, compondo um conjunto de manifestações que expressa a devoção ao Divino Pai Eterno e fortalece a convivência comunitária.

Por ser o Divino Pai Eterno, padroeiro da comunidade, a reza cantada realiza-se na capela, espaço central da devoção e das práticas litúrgicas. Já as demais atividades festivas desenvolvem-se, predominantemente, no barracão, onde se intensificam os momentos de encontro, partilha e sociabilidade. Embora ocorram em espaços distintos, essas práticas são complementares e integram um mesmo sistema ritual, conferindo unidade e significado à celebração.

A festa incorpora ainda práticas profundamente enraizadas na cultura rural regional, como a cavalgada e a tradicional "pega do boi", modalidade local de vaquejada. Nessa prática, o animal capturado era destinado ao preparo da refeição comunitária, evidenciando a articulação entre trabalho coletivo, partilha dos alimentos e devoção. Embora a "pega do boi" não seja mais realizada, em razão das mudanças na legislação e das normas de proteção aos animais, ela permanece viva na memória dos moradores e nos registros fotográficos da comunidade, constituindo importante referência da história da celebração.

Ainda que a programação apresente pequenas variações de acordo com a família festeira responsável por sua organização, a Festa do Divino Pai Eterno preserva a estrutura ritual característica das tradicionais festas de santo rosarienses. Permanecem como elementos centrais a saída da bandeira, o levantamento do mastro, a ladainha e a partilha gratuita dos alimentos e as amplas redes de cooperação e solidariedade mobilizadas para sua realização. Entre as celebrações rurais inventariadas no município de Rosário Oeste, a festa distingue-se por manter o ritual da saída da bandeira, prática que percorre comunidades e residências, mobiliza devotos, renova promessa e fortalece os vínculos entre fé, território e comunidade.

Mais do que um conjunto de ritos religiosos, a Festa do Divino Pai Eterno constitui uma referência cultural de expressivo valor para o patrimônio cultural imaterial rosariense. Nela se articulam memória coletiva, transmissão intergeracional de saberes e fazeres, práticas de comensalidade, relações de parentesco, cooperação comunitária e formas próprias de organização do espaço festivo. Ao renovar, a cada edição, esses conhecimentos, práticas e vínculos sociais, a celebração assegura a continuidade de uma tradição que integra a identidade cultural da comunidade e reafirma a vitalidade das manifestações do catolicismo popular na Baixada Cuiabana.


Pesquisa empírica e bibliográfica realizada pela autora. Uso de IA para revisão sob supervisão humana. Projeto: Cantos do Rosário - Inventários de Patrimônio Imaterial de Mato Grosso - Edição Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNABI-: Edital de Seleção nº 13/2024/SECEL/MT.

Notas

  1. No contexto da festa, o termo irmandade designa a rede de solidariedade e cooperação formada por moradores, familiares e devotos do santo, que se manifesta por meio de doações, trabalho coletivo e diferentes formas de colaboração indispensáveis à realização da celebração. Na comunidade a celebração acontece com a participação de pessoas pertencentes à comunidade de Nicolau, Cachoeirinha , Tenda (Acorizal), dentre outras comunidades rurais ↩
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